Essa semana eu tive que ir em um lugar que não conhecia e segui as coordenadas do Google Maps. Eventualmente fui parar em uma avenida vazia e cercada de muros. Mais adiante eu vi um homem. Não tinha nenhuma rua lateral, nenhuma portaria, nenhuma loja, nada. Só uma rua vazia cercada de muros e eu e um homem desconhecido. Então travei.

Mas ele estava na minha frente e eu precisava ir ao lugar onde estava indo, então insisti. Não foi fácil. Andei mais um pouco e o homem se virou para mim. Parei, olhei para trás procurando alguém. Quis sair correndo, chorar, me ejetar do mundo. Voltei um pouco, deixei ele sumir da vista, segui andando, finalmente vi uma rua lateral e entrei.

Esse tipo de situação é razoavelmente comum na minha vida. Quem convive comigo diz que eu tenho um trauma, mas admito que não consigo entender direito o que eu sinto. Quem convive comigo também concorda que isso é bastante diferente da minha personalidade. Eu sei que não nasci com isso, não nasci assim, não sou assim. E sei que isso me restringe e me atrapalha, além de me fazer sentir triste e humilhada. Mas eu melhorei bastante. Durante algum tempo tinha dificuldades em sair de casa de noite. Depois de dia. Depois até acompanhada. Meu namorado da época teve bastante paciência. É preciso muita paciência e boa vontade. Só que eu não gosto nem quero depender da paciência e boa vontade dos outros. E uma hora todos cansam de lidar com alguém tão estragado.

É assim que eu me sinto, estragada.

Meu companheiro atual pediu que eu tentasse lidar com a situação de algum jeito, quando contei o que me aconteceu essa semana. Ele fica triste por mim, quer me proteger e imagino que também seja um saco conviver com isso. E eu tentei, tanto que estou melhor. Fiz terapia, yoga, artes marciais. Tomei alopatia e florais. Mas a verdade é que nada disso fez esse medo congelante sumir totalmente. Quando estou assim sinto que mal consigo respirar, eu entro em modo de sobrevivência. E fica um tipo de ressaca. São dias me sentindo mal, humilhada. Essa semana passei por isso, novamente. Eu não consegui andar numa rua de dia, pelamor, sabe. Que tipo de idiota passa por isso?

Então vi o novo vídeo da Clarice Falcão e ele me fez olhar novamente e melhor para mim mesma:

Consegui olhar pra mim como uma pessoa que passou por uma experiência difícil e, como qualquer uma, não é alheia a ela. Mas também uma pessoa que aprendeu, com isso, a ser mais empática com os outros e consigo mesma e que é teimosa o suficiente pra não desistir nunca.

Sei que muitas de vocês também passam por situações semelhantes, ainda que de origem diferente, seja por violência doméstica, abuso ou assédio. E sei que muitas vezes vocês devem se sentir como eu, fracas e humilhadas por não conseguirem fazer coisas que são básicas aos outros. E sei que muitas pessoas devem dizer coisas ruins sobre isso pra vocês, quando a paciência acaba. Mas eu queria aproveitar que, hoje, lembrei que as coisas não são bem assim, pra lembrar vocês do mesmo:

Eu sou uma sobrevivente
Eu não vou desistir
Não vou parar
Vou tentar mais
Eu sou uma sobrevivente
Vou conseguir
Vou sobreviver
Continuar sobrevivendo

Eu cheguei no meu destino final essa semana. Pode parecer a coisa mais ridícula do mundo, mas não foi, pra mim. E eu cheguei. Isso demonstra mais força que fraqueza. Não se sintam humilhadas. Lidar com traumas de violência misógina não deveria ser algo normal. Toda forma de violência deixa traços na gente, porque somos humanas, mas nós continuamos ali, fortes e vivonas.

No final do vídeo lemos: “É preciso ter coragem para ser mulher nesse mundo. Para viver como uma. Para escrever sobre elas”. É sim, pra caramba, e nós temos, pra caramba.

Todos os lucros da venda da música no Itunes serão revertidos para as maravilhosas Think Olga continuarem fazendo seu trabalho foda. Sem elas e todas as feminazis (rss) incríveis, tanto as que vieram antes de mim quanto as que dividem esse momento comigo e eu tive (ou não) sorte de conhecer, eu não conseguiria ter clareza o suficiente para lidar com isso e, aos poucos, viver melhor e mais segura das minhas forças.

Comprem, financiem as minas. Nós estamos mudando o mundo e transformando coisas feias em coisas lindas. Nós somos sobreviventes, maravilhosas <3

survivor

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