Carolina Maria de Jesus, Virginia Woolf, Hilda Hilst, Clarice Lispector… Essas escritoras, hoje tão conhecidas, são só alguns exemplos de mulheres que conquistaram uma voz própria dentro da literatura e acharam na escrita um meio de expressão da sua realidade e de seus conflitos.

É um processo poderoso, quase mágico e muito emocionante quando visto de perto. E podemos dizer que foi o que aconteceu no último domingo, na Virada Feminista, quando um grupo de mulheres que participava de uma oficina de escrita pôde olhar para as próprias angústias, encontrar sua voz literária, ouvir outras mulheres com respeito e acolhimento e, por fim, sair de lá um pouquinho mais forte.

Foi uma troca bonita, generosa e emocionante essa que aconteceu entre as paredes de uma sala do CCJ. Será que cada uma dessas mulheres teria vivido uma experiência tão intensa sozinha? Não sabemos. Fato é que esse encontro permitiu que as mulheres abrissem sua literatura com confiança e entrega. E no coletivo, a voz de uma mulher, que chega trêmula e fragilizada, ganha potência e força para desbravar ainda mais o terreno que precisa ser conquistado por todas nós.

viradafeminista

Mulheres em criação na oficina #KDmulheres na Virada Feminista <3 

Esse é um assunto para o qual nós temos olhado há um ano, desde que lançamos o projeto #KDmulheres, que busca chamar a atenção para a invisibilidade das mulheres no campo da literatura. Afinal, apesar de serem a maior parte dos leitores no Brasil – e da própria população! –, as mulheres ainda são minoria entre os autores publicados, premiados, convidados para eventos e destacados pela mídia.

A campanha surgiu como uma provocação, com uma fanzine, um pouco de barulho na mídia e uma conversa durante a Flip do ano passado, de forma totalmente independente, na praça da Matriz. Naquele momento, nos juntamos, bradamos nosso incômodo, reunimos cerca de 30 pessoas que também queriam conversar sobre isso, sentamos no chão da praça e falamos por duas horas. Saímos fortalecidas para dar continuidade a essa luta.

Um ano depois, estivemos novamente na festa literária, mas desta vez levando a discussão para a FlipZona, circuito que faz parte da programação oficial, contando, para isso, com o apoio da Belita Cermelli, diretora-superintendente do evento, e da própria idealizadora, Liz Calder, britânica que em seu país de origem colaborou muito para combater a disparidade de gênero no mercado editorial – foi ativa na criação de editoras para a publicação de mulheres, de uma associação com o mesmo foco e de um prêmio destinado ao segmento.

De um ano para cá, entendemos melhor o tamanho do cenário que envolve esse problema. Trata-se de uma cadeia complexa, que inclui muitos pontos críticos. Por isso é importante levar o debate para editores, jornalistas, livreiros, curadores e membros de júris de prêmios e festivais. Quem atua na área editorial precisa questionar sempre se não está deixando as mulheres escritoras de lado no momento de uma seleção ou se não está enxergando sua literatura por uma
ótica limitada.

Mas não foi só isso que mudou: de volta aos paralelepípedos de Paraty, encontramos a discussão que quisemos despertar no ano passado espalhada pela cidade – na voz da cantora e poeta Karina Buhr, na fala da escritora Aline Valek, nas perguntas da plateia, no interesse de jovens e idosos pelo assunto. Mesas montadas exclusivamente por homens, como foi o caso daquela que reuniu Ronaldo Bressane, Daniel Galera e Joca Reiners Terron no Centro Cultural Sesc Paraty, também se viram diante do questionamento. Por fim, o livro mais vendido da Flip foi escrito por uma mulher, a poeta Matilde Campilho – uma bela resposta para quem teve que, mais uma vez, lidar com o fato de ser chamada de “musa da Flip” pela mídia.

Foi impossível não sentir uma enorme satisfação: se no ano passado apenas nosso grupo de mulheres, em uma roda independente em praça pública, demonstrava se preocupar com a ausência de mulheres na Flip, o problema parece ter ganhado força e espaços diversos nesta edição.

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Papo #KDmulheres na FlipZona, com mediação da organizadora da Flip Belita Cermelli, cantora e escritora Karina Buhr e nós, Laura Folgueira e Martha Lopes, do #KDmulheres

É claro que ainda temos que avançar muito. É preciso que a programação da Flip e de outras festas literárias mude efetivamente. As mulheres dominam as plateias, e agora devem ocupar seu lugar de direito nas mesas também. E mais: é preciso dar espaço para as escritoras negras, indígenas e para mulheres de diferentes origens. Não temos uma só literatura feminina, mas uma gama vasta e rica, que deve ser representada em sua totalidade. Também não podemos parar por aí: ainda temos que conquistar nossa voz na escolha das editoras, das livrarias, dos prêmios, da mídia e dos festivais em geral.

O caminho é longo, os obstáculos são muitos e com frequência nos vemos desanimadas. Mas, por um momento, olhando aquela sala de mulheres tão inspiradas e tão inspiradoras, nós percebemos: se não abrirem espaço para nós, nós mesmas vamos abrir esse espaço. Porque juntas somos mais, somos fortes e conquistamos muito, muito mais.

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