Esses dias, finalmente, vi o documentário Women aren’t funny (Mulheres não são engraçadas), da Bonnie McFarlane.

Apesar de consumir mais humor que a maioria dos gêneros, não sou comediante e, na real, sequer sou daquelas pessoas naturalmente engraçadas, feito a Polly. Na maior parte das vezes minha falta de traquejo social é apenas desagradável. Mas, mesmo assim, um fenômeno me persegue durante boa parte da vida: sou comparada com mulheres comediantes.

Por muitos anos achei isso apenas bizarro mas, eventualmente, notei que o que nos unia (eu e essas minas) pras outras pessoas era a licença para falar coisas escrotas, deslocadas da etiqueta prevista ao papel feminino.

silvermanClaro que eu bebi, usei umas drogas, tentei no cu uma ou nove vezes.

Criar ou exagerar situações cotidianas para fazer graça ou gerar choque é uma coisa comum aos homens que tem a licença social de fazer isso em virtualmente todos os lugares e situações. Eles, inclusive, adoram dizer que desenvolvem isso para se tornar mais atraentes. Já do outro lado, porém, uma mulher que não respeite o que dita a etiqueta do que é ser mulher (delicada, sensual e jamais sexual e assertiva) está rompendo com o que se espera de uma mulher. Ou seja, jamais será aceita e menos ainda atraente.

Mas o grande trunfo do humor, vocês sabem, é expandir os limites do permitido. E notar isso foi o que me aproximou ainda mais das mulheres humoristas e do humor, como um todo.

Na real eu tive essa catarse no dia que um amigo me ligou para dizer que viu a Sarah Silverman no Letterman e que éramos a mesma pessoa (inclusive antes fosse). Mas vendo a entrevista fui progressivamente notando os pequenos passos para fora da norma feminina. Por exemplo esta parte onde ela fala sobre o convívio com sua mãe.

Sarah – Uma coisa legal dos pais é que quando tu fica famosa, pode fazer o que quiser

David – Como assim?

Sarah – Tipo, ser brutalmente sincera. Eu estava na casa da minha mãe numa situação que tu não conhece, de intimidade feminina, nós estavamos no banheiro, ela escovando o cabelo e eu esperando a água esquentar. Então eu entro no chuveiro e ouço minha mãe gritar: “Sarah, que isso?”. E eu olho no espelho atrás de mim e noto que tenho um hematoma do formato exato de uma mão na minha bunda. E eu pude simplesmente dizer: “Estou dormindo com um cara que curte spanking, deve ser isso”. Daí ela ficou “Mas e doeu?”. E eu disse: “Sabe, mãe, eu normalmente estou tão chapada…”

E é nesse tipo de contexto, onde a mulher se coloca fora dessa norma tosca, que ela faz uma espécie de revolução de costumes. Tipo, reconhece esses limites mas “opõe o riso e o cómico à ideologia da seriedade”, ou seja, coloca o humor como “uma forma específica de conhecimento do social e de leitura da opressão”.

Por isso eu acredito que uma mulher que se coloca como desajeitada, sujeito sexual, enfim, que se afasta da norma, só tem dois caminhos (ambos combativos): o humor ou o embate.

homensEu só não acho que os homens sejam engraçados

Daí voltando ao documentário, nele a Bonnie (que também é comediante) entrevista mulheres e homens sobre essa ideia toda cagada de que mulheres não são engraçadas. Neste trajeto ela fala com mulheres cuja profissão é ser comediante mas trata de problemas que todas nós, que nos posicionamos para fora do cercadinho, conhecemos: exclusão de mercado profissional, solidão afetiva, impossibilidade de equilibrar carreira e maternidade, etc.

É um retrato bem rico do que é ser comediante mas, para além disso, é um retrato bem rico do que é ser esta mulher que nós queremos e lutamos para poder ser.

E o mais legal disso tudo é que, com todas as problemáticas que se apresentam, o documentário não deixa de ser todo cheio de esperança e pequenas vitórias que me botaram muito confiante de que está chegando o dia que poderemos rir livremente.

Fiquem com essa citação inspiracional:

humorSendo a menina má que eu sou, eu rio. Eu rio muito. O patriarcado não consegue lidar com uma mulher que ri. Uma mulher que ri é uma mulher livre, uma mulher sem medo!

Aqui e aqui e aqui tem mais sobre o tema.

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