“Tu não é um cara legal, tu é um falso-legal o que é muito pior que ser cruel”. Com essas sábias palavras da sua ex-namorada nós somos apresentadas a basicamente tudo que precisamos saber sobre o personagem central de Love, nova série do Netflix, dirigida pelo Judd Apatow.

Gus é o “cara legal fora dos padrões que só se relaciona com mulheres totalmente dentro deles” dessa nova produção do Apatow. Como em outras produções dele, o personagem é um homenzinho que vive de se sentir injustiçado porque o universo não presenteou ele com tudo que acredita ter direito. É uma choradeira sem fim. Também como em outras produções dele, o personagem atrai mulheres confusas com a ideia falsa de que eles são semelhantes, ele as entende. Só que ele não tem o menor interesse em ver além da superfície.

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Porque, na real, o Gus é um cara egoísta e simplório, sem grandes qualidades, mesmo, que preenche seu vazio com cultura pop, já que ela faz ele se sentir especial (ou seja, o nerd esterotípico). E, como tal, ele usa essa “vibe legalzão” para manipular mulheres a se relacionarem com ele. E, tomando o controle, ele passeia de uma mulher para outra sem conhecer muito bem nenhuma e dispensando a anterior sempre que surge alguém “melhor”.

Acreditem em mim pois eu também já peguei esse babaca – também porque sei que muitas de vocês tão nessa comigo (e vergonha nenhuma, todos erram). O babaca “cara legal nerdão” pode pagar de sensível e profundo, mas é um dos mais fúteis e dedicados entre os babaca. Inclusive se eu pudesse dizer algo pra Mickey seria: não, ele não é teu semelhante, ele é uma criaturinha escrota.

Basicamente o sonho desse “cara legal” é uma “cool girl”, tanto que ele chega a cobrar isso da Mickey, com quem se relaciona. Pra relembrar a definição da Gillian Flyn em Gone Girl:

Ser uma cool girl significa ser uma mulher gostosa, brilhante e divertida que adora futebol, poker, piadas sujas e arrotar, que joga video-games, bebe cerveja barata, ama sexo anal e sexo a três e enfia cachorros quentes e hambúrgueres na boca como se tivesse realizando o maior gang bang culinário do mundo, mas isso tudo sempre mantendo um manequim 36, porque cool girls são, acima de tudo, gostosas. Cool Girls nunca ficam brabas, elas só sorriem de maneira amável, e deixam seus homens fazerem o que eles quiserem. (…) E os homens realmente acreditam que essas garotas existem. Talvez eles sejam levados a acreditar nisso porque muitas mulheres estão dispostas a simular ser essa garota.

A resposta da Mickey para a cobrança de Gus seria massa se ela não continuasse nessa:

Surpresa! Eu não sou uma cool girl. Eu não sou só uma garota que tu pode comer um tempo pra te provar que tu pode ser perigoso e aventureiro e não só um troxa completo.

E esse relacionamento todo errado onde um manipulador sem qualidade aparente seduz uma mulher fragilizada (que “só quer amar”) pra cagar na vida dela não é inédito, claro. Muitas de nós já passamos por isso. E isso também abre espaço para questionarmos como o amor se insere no nosso imaginário de mulheres. Mas não vi isso na série e, sinceramente, espero mais das minhas ficções. E não porque espero personagens perfeitas nem perfeitos, só espero não ver esse tipo de bosta sendo mostrada como algo bom. Algo cool.

Simples.

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E da série de raivas que eu passei vendo esse seriado talvez a maior seja notar que a trama e esse personagem são vistos como uma espécie de “compensação” aos “nerds injustiçados e solitários” do colégio. Mas só os homens. E entre as “compensações” que esses caras acreditam ser direito deles está o fato de as mulheres estarem totalmente dentro dos padrões. Porque ter uma mulher linda ao lado “valoriza” esse cara. Ou seja, a mulher é só um commodity. Mais uma vez. Que cansaço. Pleno 2016, cara.

E, sobre isso, Polly falou:

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Juro que li vários textos e repensei minhas memórias tentando ver algo de minimamente positivo para as mulheres nesse seriado. Não achei, se alguém achou, me diga. Para mim ele é apenas sobre um cara egoísta e manipulador e uma mulher aceitando migalhas que, inclusive, ele só dá quando não tem ninguém melhor no pedaço.

Mas o que esperar de um seriado que se chama “Amor” criado pelo Judd Apatow? Admito que estava pronta para ver uma desconstrução do amor e até algum choramingo de homem branco de classe média, mas nada poderia me preparar para o monte de escrotidão e futilidade sendo colocada como a “magia do amor”. Ou seja:

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