Tem dois anos e meio, mais ou menos, que eu descobri um esporte meio doido e cheio de regras que fez eu, sedentária confessa, me apaixonar por treinos, disciplina e competição.

O milagre? Se chama Roller Derby o tal do esporte, ele é relativamente novo no Brasil e é praticado majoritariamente por mulheres.

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Roller Derby, o jogo, é assim: cinco meninas em cada time, de patins quad (aqueles antiguinhos, sabe?), em uma pista oval. Dessas cinco meninas, uma tem a estrela no capacete e é a jammer. Ela tem a função de ultrapassar o bloqueio do time adversário e cada adversária que ela ultrapassa é um ponto pra sua equipe. E como ultrapassar? O bloqueio formado pelas outras quatro meninas (wall ou pack) esta lá para segurar a jammer, que se defende correndo muito, dando alguns hits (ombradas ou “bundadas” nas áreas legais do corpo) e tendo muito jogo de cintura e conhecimento das regras. Assim é o Roller Derby, um esporte de contato, de explosão física e de estratégia.

A gente costuma dizer que Roller Derby é como jogar Xadrez enquanto te jogam tijolos. É basicamente isso. Você tem que ultrapassar o bloqueio adversário, segurar a jammer alheia, ao mesmo tempo em que tem que ajudar a sua própria jammer a fazer o mesmo e ainda tem que pensar em como fazer tudo isso de maneira legal. Pois o Roller Derby é um esporte de contato, mas não é uma luta.

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É comum ter medo de se machucar ao começar a jogar, mas veja: estamos usando equipamento de proteção até os dentes (mesmo!) e, como disse, não é uma luta. Eventualmente, quedas e contatos mais fortes podem acontecer, mas estamos protegidas e, ao menos na liga a qual faço parte, somos ensinadas a cair antes mesmo de ensinadas a andar de patins. Então, fique calma, você está protegida.

Aliás, o sentido de proteção vai muito além nesse esporte. Por ser praticado apenas por mulheres (agora é que estão começando a surgir no Brasil meninos querendo praticar), ao entrar para uma liga de Roller Derby você percebe um sentimento muito forte de sisterhood, que te abraça e te acolhe. Mais do que colegas de time, somos amigas, quase irmãs. Sabemos da vida uma da outra, damos conselhos, puxões de orelhas e palavras de incentivo. Brigamos, fazemos as pazes, choramos e depois rimos até chorar, sempre juntas. No Derby também temos o conceito de Derby Wife, que é tipo a sua melhor amiga de todas dentro da liga. Aquela que te incentiva a continuar, que cuida de você, que te diz onde você está errando e pode melhorar – e onde você está acertando e sendo incrível.

Além disso, o Derby não é feito só pelas meninas que jogam. Existem os juízes, a equipe de apoio, os comitês diversos, que fazem a liga e os jogos acontecerem. É um esporte feito por quem o pratica, no melhor estilo Do It Yourself: do uniforme à marcação da quadra, nós é que fazemos tudo, sem apoio externo quase nenhum. É esse sentimento de equipe, de união, que mais encanta no RD. Ao entrar para uma liga de Roller Derby você nunca mais se sente sozinha.

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E ele te aceita como você é. Pois o esporte também tem disso. Não existe um tipo físico ideal para participar. Baixinhas, magrinhas, gordinhas ou altonas: todas tem lugar, todas têm qualidades que podem ser utilizadas no jogo. Uma garota gorda pode ser uma ótima bloqueadora, enquanto uma pequenininha pode ser uma jammer veloz. Uma mais alta pode bloquear melhor, uma mais baixinha pode ultrapassar o bloqueio com mais agilidade. Ninguém fica de fora. Todo mundo tem uma qualidade no Roller Derby.

O Derby, inclusive, dá espaço para todos os gêneros. Como no Vagine Regime, uma comunidade dentro do Roller Derby que busca unir queer, les, bi e trans e seus simpatizantes que praticam ou tem interesse no esporte.

Sem que eu percebesse ou procurasse por isso, minha vida mudou com o Roller Derby. Estou sempre cercada de amigas, minha saúde e meu físico melhoraram e me sinto capaz do que quer que seja. Tenho uma camiseta que diz: “O Roller Derby salvou a minha alma”. É uma letra de música, mas é verdade. Nesses dois anos e meio, mais ou menos, levando porrada, caindo no chão e levantando às gargalhadas, eu me tornei uma pessoa mais confiante, mais amada e mais feliz. Quem diria que um par de patins me levaria tão longe?

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O Roller Derby é um dos esportes que mais cresce no mundo e já existe em muitos estados brasileiros. Em São Paulo reside a liga pioneira do esporte no país, a Ladies of HellTown, a qual faço parte. Para saber mais sobre como fazer parte ou apenas conhecer e assistir nossos treinos e jogos, clique aqui.

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