foto: Ale Rocha

foto: Ale Rocha

 

Esse guest post é da companheira de militância e amiga, a jornalista Ellen Paes, que teve seu facebook bloqueado na véspera do oito de março por conta de denúncias falsas em seu perfil. Infelizmente por questões jurídicas não podemos citar o autor, que é uma pessoa que a persegue sistematicamente e de forma consistente há alguns anos. Mas sabemos quem ele é. E não vamos nos calar. E não vamos permitir que nenhuma companheira seja calada. Uma por todas.

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Na véspera do dia internacional da mulher tive meu facebook bloqueado.

A justificativa são fotos minhas com minha filha.

Vejam bem…

Não fotos proibidas.

Não pornografia infantil.

Nenhuma cena violenta ou maus tratos.

Fotos em que ela aparecia sendo amamentada, vídeos dela cantando ou tocando algum instrumento com minha família.

Fotos nossas de momentos de encontros com amigas.

Acordei nessa véspera do dia da mulher para dar o café da manhã da minha filha e ir trabalhar em paz. Tinha dois roteiros pra escrever e entregar e iria usar a ferramenta do facebook para divulgar as atividades em que estou mobilizada durante essa Semana da Mulher, mas não pude porque a rede social acatou às denúncias e me bloqueou.

Pois é. Todo mundo sabe que este é o principal meio que não só eu como várias outras ativistas utilizam para se organizar na militância.

Só por este dia fui silenciada. O que tem demais, não é mesmo? Só um dia…

O que tem demais é que todo mundo sabe também que há três anos sofro agressões de todo tipo e perseguições de uma pessoa patologicamente obcecada pela minha vida e que, tendo esgotado todos os meios possíveis de controle sobre mim, agora utiliza a maternidade para me cercar.

Tudo começou quando tive minha conta invadida.

Sim, eu tinha outra conta nesta mesma rede social e que foi invadida. A pessoa que me hackeou surtou após se dar conta que eu estava cometendo o terrível crime de marcar um encontro com alguém. Eu, mulher recém-separada. Não podia marcar encontro com alguém do meu interesse.

Para o Facebook, invadir conta pode. Postar fotos com a filha não. É o recado que ficou pra mim deste episódio.

A pessoa é bloqueada do meu perfil, mas tem acesso a tudo o que publico provavelmente através de informantes que não têm mais o que fazer da vida ou perfis fakes. A pessoa passou a madrugada de domingo pra segunda-feira obcecada em meu perfil. A pessoa tem como única salvaguarda o Estatuto da Criança e do Adolescente, com o qual, inclusive, trabalhei diversas vezes e que, até onde sei, nunca vi que alguma mãe estava proibida de publicar fotos suas em seus perfis de rede social com suas filhas. Filhas essas que estão sob a guarda delas.

Uma interpretação equivocada do ECA diz que não posso estar com minha filha onde eu quiser? Vamos istaá. Eu vou dizer para vocês o que é crime. Anotem aí, porque a lista é grande e bem maior que publicar foto com filha:

  1. Invadir um computador para acessar a conta de outra pessoa e obter informações confidenciais de chats pessoais;
  2. Ameaçar tocar fogo no carro de alguém para que ela não possa se locomover;
  3. Esconder as chaves de casa ou carro, impedindo a pessoa de sair;
  4. Avançar fisicamente em alguém, empurrar, apertar o braço e machucar para tomá-la o celular e impedi-la de se comunicar;
  5. Ameaçar de morte alguém que se relacionou com essa pessoa, anunciando inclusive por email marca e calibre da arma que mantinha em casa: uma Taurus 765.
  6. Ameaçar se matar por duas vezes quando da ameaça de ser denunciado na polícia e/ou ter que revisar ação de pensão alimentícia.

Mas o crime quem comete é a mulher que posta fotos com a filha no facebook…

Há alguns meses fui ameaçada de processo por ter levado minha filha comigo a um ato de mulheres. No mesmo dia em que, vejam bem, ela não deveria estar comigo.

Eu queria muito poder dizer que sou a única a passar por esse tipo de violação e personificar essa luta, mas eu acho que precisamos realmente repensar as estruturas em que essas redes estão inseridas e quem elas escutam.

Como eu, outras mulheres têm sido sistematicamente silenciadas ou agredidas nessa rede social por homens que simplesmente não suportam as ver em destaque. Eles se organizam em grupos, fazem perfis falsos e combinam denúncias em massa.

São em maioria menininhos mimados e perdidos. Perdidos diante da impossibilidade de controlar o que elas fazem, dizem ou escrevem. Perdidos diante da força que elas têm e da proporção que suas vozes tomam.

Não são Ellens, Stephanies ou Lauras.

Somos muitas. E estamos formadas!

Precisamos entender que é muito simbólico que esse tipo de situação ocorra em uma semana como essa. Não é semana de flores, é semana de luta.

São pequenas violências que nos levam a violências mais cruéis porque vão passando sutilmente por essas pequenas legitimações dia após dia.

Impedir uma mulher de falar, impedir uma mãe de estar com sua filha onde puder, relegá-la ao “lugar dela”, à pia de louça, ao cuidado exclusivo doméstico, à cria.

Mulheres que ousam ultrapassar os limites do aceitável para o sistema. Mulheres que denunciam diariamente o machismo e o racismo. Que dão a cara à tapa. E que sabem bater também.

Mulheres que são cobradas de serem mais fortes, principalmente quando mães solteiras ou quando negras.

“Você é guerreira”, dizem.

Não percebem que isso faz com que sejamos obrigadas a suportar quietas todas essas doenças sociais e carregá-las nas costas. O que esperam? Que a gente adoeça? Que a gente morra?

São de violências em violências sutis legitimadas pela ordem vigente que um dia qualquer mulher pode se tornar uma Maria da Penha também. E não são poucos os exemplos em um espaço curtíssimo de tempo.

Só nesta última semana já temos relatos de mortes que fizeram mulheres como a líder quilombola Francisca das Chagas da Silva morta.

Teve também o assassinato das mochileiras argentinas na Bolívia Maria José Coni e Marina Matarazzo.

Denúncias de meninas de sete anos que deveriam estar sendo protegidas por agentes da ONU sendo obrigadas a fazerem sexo oral neles em troca de água.

Absurdo atrás de absurdo.

Não adianta resolver tudo com uma hashtag enquanto essas coisas – das pequenas às mais graves – passam.

De minha parte, mantenho que meu lugar é onde eu quiser. E com minha filha ao lado. Sobretudo, porque ela quer.

Mas ser forte cansa.

Estou cansada, mas avisa lá que eu não vou parar.

Não vamos!

Avisa lá que, como eu, mulheres negras estão aprendendo a usar as mesmas ferramentas com as quais tentam as derrubar para se tornarem maiores e melhores.

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Você pode seguir as excelentes publicações da Ellen sobre feminismo, maternidade, e outros quetais aqui.

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