Andar pela República tem sido sinônimo de encontro com dezenas de imigrantes senegaleses com suas banquinhas vendendo cordões, panos, artesanatos, assim como, mais à frente, na Galeria do Reggae, vemos reunidos alguns nigerianos e nigerianas nos negócios. Cartografar a cidade tem sido um dos exercícios que o rap tem empreendido desde os seus primórdios por essas terras paulistanas, de Sabotage a Racionais. E é graças a essa tarefa de mapeamento poético através das rimas que percebemos que aquela velha ideologia brasileira do tudo-junto-e-misturado da cosmópole multi-cultural é, na verdade, bem marcada por desigualdades: afinal, os imigrantes africanos e haitianos que chegam aqui em São Paulo estão bem próximos de nós, filhos e filhas da diáspora, não só em nossa luta diária pela sobrevivência, mas também na ancestralidade. Esse novo cenário cosmopolita é muito bem retratado no novo clipe de Lurdez da Luz, “Naija”, presente em seu último disco “Gana pelo Bang”. Nesse corre de lançamento, troquei uma ideia com a Lurdez sobre a ideia de “Naija”.

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Como surgiu a ideia de “Naija”?

Vem de uma identificação de alma em primeiro lugar com a música negra em geral. Quando comecei a me expressar através de rimas sempre fui buscar conhecimento sobre ícones negros de toda América sobre história afro-brasileira, e depois da África. Já no começo sempre citei pessoas como Jovelina Pérola Negra, Nina Simone, intuitivamente, num quis me podar por ser branca, nem tampouco nada foi de caso pensado no sentido de ser aceita no rap. Eu sei o quanto a discussão sobre questões raciais é delicada e tenho posicionamentos claros sobre vários tópicos, mas nunca pretendi ser uma voz que representa a juventude negra. Num teria cabimento, sempre pisei devagarinho, sempre com respeito. Só quero ser fiel a como sinto a música e as palavras fluírem em mim, ao que gosto de ouvir, num posso ter como opção ser uma mina do indie rock porque isso é mais adequado ao meu tom de pele, uma mulher negra num tem que fazer dança afro se ela quiser ser bailarina do municipal. Eu quero me aproximar cada vez mais da África, e o próximo passo, ir lá, produzir lá. Naija é só uma evolução do meu olhar pra São Paulo, pra África e pro meu interior.

Você participou do roteiro do clipe. Como foi o processo de gravação?

O roteiro foi se modificando num processo tão lento quanto foi esse de Naija. Tivemos mil ideias, algumas entraram outras num rolaram, tipo os manos de banca dançando ao som da música. É complicado bater agendas de uma equipe quando o trampo é sem orçamento. Muitos caras e minas que queríamos filmar num toparam, num confiam na gente, estão ilegais aqui, ou queriam uma grana que eu se tivesse dava mesmo. Aliás, isso vale pra todos que atuaram rs… A ideia de ter um africano que acorda e trampa aqui e acompanhar o rolê dele veio da produtora parceira Porqueeu?, aí o Tuba (Tubarão Dulixo), meu companheiro, fez a ponte com o Ras, que tem primo na galeria que tem um bote lá em cima. A ideia de minas “guerilheiras” dançando foi minha, e de fato todas que iam dançar e as que conseguiram estar presentes no dia são mulheres firmes, conscientes, que lutam no seu dia a dia e isso faz muita diferença, porque eu queria movimentos e expressões de resistência e não pra alimentar a libido masculina, uma expressão de beleza fora dos padrões.

A estética africana tem sido fundamental no processo de empoderamento de muitas meninas negras. Não é difícil encontrar hoje nas ruas minas ostentando o black ou com turbantes. Você acredita que esse processo de imigração africana em São Paulo colabora com isso tudo?

Acho que num tem a ver com a imigração não, é um processo do Brasil mesmo, mesmo porque vem muito menos mulher que homem, mais um lance preocupante aliás… Tem a ver com a ascensão social negra, mas tem mais a ver mesmo com a militância, com a consciência negra sendo disseminada. Quando se fala em consciência se fala em empoderamento feminino também. Num quer dizer que uma negra que alise o cabelo tá renegando sua raça, às vezes pra ela num tá estética nem nesses símbolos de poder a consciência da sua negritude, e ainda assim ser super consciente e atuante, ou representativa… Mas estatisticamente o alisamento, e desculpe entrar nesse ponto, o extremismo evangélico são sintomas de embranquecimento da consciência negra no nosso país.

Cada vez mais as minas do rap estão ganhando visibilidade. O que você nota de diferença entre seus tempos no Mamelo e hoje?

Muita diferença, em quantidade e qualidade, muito mais minas e muito melhores em técnicas assim como em exercício de liberdade. Me sentia quase falando sozinha naquela época, digo, sem ter com quem trocar idéias sobre som, sobre rua, sobre como é pra nós mulheres estar atuando nesse campo, nesse jogo, enfim. Em diversidade também tá muito mais interessante o cenário, as poucas mas grandes pioneiras tinham que seguir um padrão mais fechado de comportamento, de expressão. Acho que a minha geração e a anterior prestava mais conta aos homens com quem convivíamos no rap, os que trabalhávamos. Eu ainda acho importante estar marcando presença no meio dos caras, eventos mistos, grupos, parcerias, mas sem se podar, exercendo seu papel como você de fato quer. Algumas das minas hoje já nem querem isso, num fazem questão de trocar com homens… Eu acredito em relações em pé de igualdade, tenho uma formação mais anarquista em termos de fundamentos que me direcionam, então num tenho essa gana de dominar e de impor, muitos manos curtem meu som de verdade pelo que ele é. Embora ache também bem loko ações que em todas as funções só tenham mulheres… Porque é aquele lance, os ricos num vão dividir com os pobres, os pobres tem que ir lá e tomar. Por exemplo, quem convidou as mulheres pra abrir os shows do Racionais foi Eliane, dona da produtora Boogie Naipe e não os caras, sacou?

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