O que você entende por piranha?

Eu, até um tempo atrás, usava o termo como pejorativo.

Aquela piranha. 

Ela. Nunca eu.

Aquela piranha que pegou meu namorado, ó, pobre babaca, é homem, né?

Aquela piranha que não tem cérebro e precisa usar o corpo.

Aquela piranha que pega os caras de banda só porque são de banda.

Aquela. Aquela. Aquela. A outra. Nunca eu.

Piranha. Vadia. Vagabunda. Biscate. Tudo isso.

Roupa de piranha. Cara de piranha. Voz de piranha, jeito de piranha.

Ainda bem que o tempo passa, a gente pensa, aprende e se toca.

Agora entendo as coisas de outra forma: uma piranha é uma mulher livre. Uma mulher que vive sem culpa. Uma mulher que não está nem aí pra esse modelo de mulher comportada que exigem da gente. Uma mulher que faz sexo com quem estiver afim sem se preocupar com o que vão achar, que veste o que gosta, que faz o que tem vontade.

Toda mulher já foi chamada de piranha por alguém.

Alguém que ela rejeitou. Alguém que a desaprovou. Porque deu. Por causa da roupa. Por causa de boato, por causa de sexo, porque sim. Porque sempre vai ter alguém pra apontar o dedo e julgar.

A piranha sou eu.

Aí quando a gente fala isso é batata que vai chegar um babaca e pensar: essa é fácil. Essa é só chegar. Porque os babacas ainda não entenderam que a piranha é o sujeito, não o objeto. A piranha pega quem ela quiser, se ela quiser, não qualquer um que a quiser. Ser piranha não tem nada a ver com “se dar o respeito”. O respeito é meu e ninguém tasca. E quem achar que eu não “mereço” que vá se roçar nas ostras, que não estou na vida pra agradar gente careta.

E eu ainda sou uma piranha romântica que se apaixona e escreve sonetos. Que manda nudes de boa noite e curte ver uns filmes estranhos depois de falar umas merdas e passar dias enfurnada em casa. Com quem eu quero. Com quem eu escolho. Piranho com quem eu curto. Piranho bem pouco pois não tenho mais paciência, mas na juventude, ó: piranhei muito.

“E quem vai namorar uma piranha?”

Sinceramente, se o sujeito não conseguir entender que eu sou uma mulher livre, por que eu vou querer ficar com ele? Pra acabar como meu último ex, que sofria e dizia “quero que você seja minha, mas você acha que as pessoas não pertencem umas às outras” em tom dramático enquanto propunha que eu arrumasse umas minas pra gente pegar juntos?

Não, obrigada.

E homem pode, né?

Homem é garanhão. E o garanhão, quando “sossega”, é porque encontrou uma que conseguiu fisgar. O garanhão é esse ser livre que todas  querem, o cafa esperando sua redenção em forma de mulher.

E a piranha… É só uma piranha. Gasta, rodada, todo mundo já pegou. Quem vai querer?

200

Ser piranha não significa que você vai sair pegando geral. Você pode, se quiser. Mas ninguém vai tirar a sua carteirinha se você quiser ficar sussa, posto que liberdade imposta não é liberdade. Você pode até ser uma piranha monogâmica, se bem entender. Você pode ser a piranha que quiser.

Mas e a piranha que vai atrás do meu namorado?, você pode se perguntar. Colega, pensa bem quem está errado nessa equação; se o cara não quiser, ninguém vai fazer nada. Existe muito cinza entre o preto e o branco.

Uma piranha é uma mulher livre e eu não permito mais que isso seja um xingamento de gente querendo controlar a sexualidade alheia. Tomei o termo pra mim, lavei, penteei, botei um lacinho e voilá: piranhar é uma coisa boa, divertida, leve, sem culpa.

Piranhe você também. Prometo que sua vida vai ser melhor sem culpa.

, , , , , , , ,