Estou grávida do meu primeiro filho. Na verdade, estamos prestes a entrar no nono mês de gestação. O bebê foi planejado (dentro do que é possível planejar uma criança, já que a vida às vezes toma conta da gente), e eu e meu marido discutimos antes muitas coisas a respeito do que queríamos para essa gravidez – claro, dentro do possível do querer.

A que gera mais polêmica e rege a minha gravidez até hoje é: nós não queremos saber o sexo do bebê¹. Parece simples, né? Não, não é nem um pouquinho.

A primeira intenção foi apenas ter uma surpresa. No começo, fomos completamente inocentes não sabendo o tamanho da briga que arrumamos.

Você lendo deve estar se perguntando: “Ai, não exagera! Que briga tu poderia comprar pornão saber o sexo da criança?” Minhas queridas e meus queridos, a mesma briga de sempre: aquela que diz respeito a gênero.

blaBla! Eu sou um kraken vindo do mar!

Obviamente, a primeira pergunta que ouço quando as pessoas percebem minha gravidez é: “É menino ou menina?” A pergunta não ofende. Aliás, 99,9% das mulheres na minha fase gestacional sabem o sexo do bebê. O problema é quando respondemos: “Decidimos não saber o sexo”.

Muitos são inocentes e só me perguntam: “COMO VOCÊS NÃO SABEM O SEXO?” Entendo a ansiedade. Mas não sabemos o sexo e está tudo muito, muito bom. A assombração de não poder determinar meu filho em caixinhas termina aí.

Porém, em outros casos, começamos a ouvir: “Mas como vocês estão fazendo o enxoval? Tudo neutro, né? Branquinho, verdinho, amarelinho?” Então começa o pesadelo. Como explicar para as pessoas que cor é cor, por exemplo. Que rosa, azul, violeta, vermelho, preto são pigmentos e que não querem dizer absolutamente NADA em relação ao que meu filho será ou deixará de ser. Quando falamos que o enxoval tem TODAS as cores e que sim, compramos roupas azuis e rosas também, escutamos o sermão da montanha da perdição do NÃO PODE.

preguiça*preguiça, cara*

 Não pode. Não pode porque se for menina, ela não pode se vestir de azul. Ela não pode ter um body de caveira. Ela não pode brincar com carrinhos. Ela não pode ter um Thor de pelúcia². Não pode porque se for menino, ele não pode se vestir de rosa. Ele não pode ter um lençol com detalhes “de menina”. Ele não pode ter uma Melissa do Nirvana. Não pode porque ele pode ser viado assim.

Para as pessoas, nosso filho não pode ser rotulado. E se não pode estar numa caixinha de macho ou fêmea, como lidar? Como comprar presentes? Como comprar roupas? Como chamá-lo? Como impor os papéis de gênero?

E a minha pergunta é: por que impor os papéis de gênero já na vida intrauterina? Não basta tudo o que a gente passa aqui do lado de fora com o como “devemos nos comportar para ser bem vistos”, pra que fazer um feto já passar por isso?

Eu estou tendo uma oportunidade de dar ao meu filho todas as possibilidades. Não que seja um exercício fácil. Estamos há oito meses o exercendo e vou dizer: às vezes ainda é difícil não sucumbir ao discurso do neutro.

E vou dizer que o mundo é bem mais legal quando a gente não acredita na cor menino e na cor menina!

mãe e baby

Observação: o discurso aqui não é “faça como eu e não saiba o sexo do teu bebê”, mas é “saia das caixinhas do gênero e se dê a oportunidade de não rotular”!

¹ Na língua portuguesa, por uma questão gramática arbitrária, não temos um gênero gramatical exclusivamente neutro. Utilizamos o masculino nesse caso. Por esse motivo, toda referência será feita no masculino como gênero não marcado.

² Esta o marido ouviu quando comprou um Thor de pelúcia para o bebê e afirmou não saber o sexo.

, , , ,