Ontem estive no programa Jovem Pan Morning Show e depois do bloco da minha entrevista começou a tocar uma música incrível, meio sessentinha. Perguntei o que era e me disseram que era essa garota nova, que estava há semanas no topo das paradas e que a letra era sobre estar fora dos padrões de beleza.

Uh!

A música é realmente incrível e a garota se chama Meghan Trainor. Ela tem 21 anos, canta desde os 11 e compôs essa canção depois de assistir um episódio do maravilhoso Ellen Degeneres Show sobre o uso nefasto de photoshop.

Pensei: que maravilhosa! A música fala que não precisa ser size 2 (nosso 36), que I’m bringing booty back (parafraseando Justin Timberlake, porém em vez do sexy ela quer trazer a bunda), que every inch of you is perfect from the bottom to the top (cada pedacinho seu é perfeito dos pés à cabeça).

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Porém, quando fui escutar a letra direito… Ai, não.

Tinha tudo pra ser uma letra empoderadora, e eu acho que ainda é, de certa forma, porque essa coisa de “thinspiration” (“inspiração magra”, uma tag que as meninas usam em modelos magérrimas, frestas de coxa, costelas e etc, super utilizada por grupos de garotas anoréxicas) precisa acabar MESMO e não tem como ser ruim uma moça no topo das paradas dizendo que curte ter curvas, mas… Não precisava dizer que curte ter curvas porque é o que os meninos gostam e que mamãe disse que eles curtem um bumbumzinho pra apertar. A gente tem que se curtir pra se curtir, né? Senão cai naquela história de “homem gosta de ter onde pegar”. Depender de aprovação masculina pra se gostar é bem complicado – e é difícil se livrar disso, eu bem sei. Sei mesmo.

E aí tem outra pegadinha que a Polly me mostrou. Logo antes da maravilhosa frase “cada pedacinho seu é perfeito dos pés à cabeça” tem o que? “Eu sei que você se acha gorda, mas”. Quer dizer, se for gorda é um problema, só pode se achar e não ser, estar apenas fora do padrão esquelético como é a autora da música – e como são tantas outras meninas, que, de fato, estão longe de ser gordas. Não é por aí, né? Temos belezas de todos os tamanhos, inclusive as “skinny bitches” de quem a música também tira uma onda. Dá pra entender que a ideia era questionar o padrão, mas acaba sobrando para as meninas que são magras (principalmente no clipe, que tem uma magra lá embrulhada em plástico sendo ridicularizada) e não é por aí também. Sabemos que existe privilégio magro, mas também temos que saber que esse privilégio se estende às meninas que se acham gordas, mas não são percebidas ou tratadas como tal.

Então: é uma belíssima canção, mas não precisava nem tirar onda das meninas magras, nem deixar subentendido que se for muito gorda não vale, e, por misericórdia, não viver em função do que homem gosta.

Todo mundo quer amor, mas não é buscando a aprovação assim e se contentando em ser qualquer coisa porque “os caras gostam” que vai se conseguir isso.

Vou deixar de ouvir a música? Nem se eu quisesse. Passei os dois últimos dias cantando sem parar. Mas passei os dois últimos dias pensando na letra e em seus problemas também, porque é muito fácil a gente sair cantarolando as coisas e acabar internalizando se não der aquela criticadinha básica. Não tem problema gostar dela, ou da Nicki Minaj, ou do que for, mas é sempre bom pensar a respeito do que a gente anda repetindo por aí, né?

Esperamos que Meghan siga fazendo sucesso mas que acerte em cheio da próxima vez, porque essa foi quase.

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