Meu dia começou como todos os outros, reunindo forças, enquanto mexo no celular. Nessa hora, vi várias pessoas revoltadíssimas com um outdoor na cidade de Curitiba de um suposto “Movimento pela Reforma de Direitos”. Acho que todos, a essa altura já devam saber do que estou falando, para quem não sabe, olha esse link aqui.

Sim, a campanha é horrorosa, revoltante, nojenta, tem um caminhão de adjetivos que podem ser utilizados. Nem vou me estender nas razões pelas quais essas ideias constituem o mais claro discurso de ódio (que inclusive denunciado ao facebook deu em nada).

Com o passar das horas, e alguns apelos para que não se compartilhasse essa página, que isso estaria dando visibilidade a tão vil campanha, surgiram hipóteses (veja essa aqui, por exemplo) de que se tratava de “viral”, para alertar as pessoas sobre as opressões sofridas por pessoas com deficiência nessa semana na qual a ONU celebra o dia 03 de dezembro como Dia Internacional da Pessoa com Deficiência.

Aí é que tudo parece bem pior. Numa cascata de erros, temos como absurdo primeiro o discurso de ódio que a campanha prega.

A seguir, o erro se resume em dar grande visibilidade para essa campanha. O famoso “olha que absurdo” com o link da página que, a princípio, tinha pouquíssimos likes. Veja bem, entendo que a vontade é demonstrar o imenso nojo perante palavras tão capacitistas. Mas é nesse momento que eu queria aproveitar para lhes pedir que olhem um pouco para as pessoas com deficiência e vejam o que elas tem a dizer.

feminismo-e-deficiência

A agressão da página é abjeta e clara e por isso merece imediato descontentamento. Mas e quanto às agressões sofridas diariamente pelas pessoas com deficiência? Por que tão pouco discutidas, avaliadas? Seria um momento de reflexão, dessas pessoas que compartilharam a campanha do MRD, quantas delas já compartilhou textos escritos por pessoas com deficiência? Vivemos num tempo em que se dá mais voz a quem erra do que a quem precisa que alguém acerte.

Eu gostaria de ouvir menos sobre as ofensas, essas sofro na pele sempre. Eu gostaria de ser mais ouvida.

O que está sendo feito para além dos compartilhamentos revoltados?

Grande parte das agressões feitas contra pessoas com deficiência nem são percebidas como agressões. E isso também se deve ao fato de que as pessoas com deficiência são pouco ouvidas nos meios de comunicação. Não nos sentimos representados na política, no feminismo, nas grandes mídias. Parece que só temos a chance de aparecer quando é para mostrar quão desgraçada, cheias de percalços e histórias de superação é nossa vida, quando serve para nos manter no local de incapaz, menor.

acessibilidade-kdCadeirantes enfrentam dificuldades para usar ônibus em BH

Eu gostaria muito que esses cliques de indignação se revertessem em visibilidade para as pessoas com deficiência que estão aí a todo tempo dizendo o quanto o mundo é excludente. Muito se fala de vagas de estacionamento, enquanto a maioria da população com deficiência é de baixa renda e depende de transporte público (ou pelo menos uma calçada acessível) para, por exemplo, ir num posto de saúde ou frequentar a escola.

Há que se expandir os horizontes, trazer a voz para grande parte da população que vive escondida. Da próxima vez que tal tentar dar menos compartilhamentos para um (suposto) viral infeliz e mais espaço para que as pessoas com deficiência falem por si?

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