Desde que a série do Fantástico sobre mulheres que amam demais foi tema por aqui, fiquei tentada a escrever sobre o assunto.

Vale dizer que haverá generalização, mas é bom ter em mente, também, que quando se fala de feminino, em psicanálise, não se está falando de gênero, mas de posição. Qualquer pessoa pode caminhar entre ambos os lados, feminino e masculino.

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Jacques-Alain Miller diz que a demanda de amor feminina tem um caráter ilimitado, assumindo uma forma erotômana em certas mulheres. Engraçado que erotomania é um termo mais utilizado quando se fala de psicose – vai ver é por isso, também, que curtem chamar as mulheres de loucas… Não somos não, obrigada -mas não se deve confundir as erotomanias, porque enquanto o psicótico tem absoluta certeza do amor do outro, as mulheres neuróticas costumam duvidar, esperando, muitas vezes, provas de amor. Miller aponta, inclusive, a uma necessidade de que seu par lhe fale. Seria inconcebível que houvesse amor sem palavras.

O excesso da demanda de amor de algumas mulheres é consequência do que é impossível de simbolizar que está em jogo no feminino, que impede que se possa dizer que ser mulher é isso ou aquilo e torna impossível a existência de ‘A Mulher’, porque cada uma é uma. A moça não para de demandar algo que preencha nela o que não tem resposta nem nunca terá. Parece com aquela demanda que há na relação mãe e filha, de algo que dê existência ao seu ser de mulher, né? Pois Lacan usa a mesma palavra, devastação, para falar do que um homem pode chegar a ser para uma mulher. Freud, inclusive, observou as implicações da ligação com a mãe na relação amorosa da mulher, indicando que ainda quando a eleição de objeto se relacionada à ligação com o pai, a ligação com mãe e filha se desenrolava sobre o par amoroso. Dessa forma, se poderia pensar na demanda de amor infinita dirigida a este como uma herança da demanda anterior por subsistência, que era dirigida à mãe.

É a cara feia do amor, a devastação. E Miller a define como o retorno da demanda de amor erotômana, que é dirigida ao outro, sobre a própria mocinha.O que significa isso? Se ela demanda infinitas provas de amor, essa demanda nunca será satisfeita e nunca irá se calar. Delícia, né? Outro psicanalista ótimo, Jesus Santiago, afirma que a erotomania é quem alimenta o masoquismo, e o masoquismo, pessoal, tem tudo a ver com o supereu. Esse direcionamento ao outro – que não possui resposta satisfatória a essa demanda – arma um ciclo reivindicatório interminável, que serve para que? Para alimentar o supereu. E acreditem quando Lacan diz que o supereu é a única coisa que nos obriga a gozar. E quando se está sofrendo por amor também se está gozando, porque se não houvesse algum tipo de gozo era fácil virar as costas e ir viver a vida longe de quem só nos faz mal.

Se a demanda é por algo que lhe dá lugar, o risco é acreditar em qualquer resposta que venha do objeto amado, porque se a Fulana não significar nada para o Sicrano, ela mesma pode achar que não é nada. Como eu já disse anteriormente, esperar que outra pessoa te proteja da inconsistência do seus semblantes não te valida como mulher, mas te deixa vulnerável a se perder se perder tal pessoa. Amar demais, então, pode se tornar uma grande cilada quando a gente coloca no amor do outro todas as fichas para encontrar nosso lugar no mundo, ou quando passamos a nos achar um lixinho porque alguém não nos ama o suficiente. E a demanda por palavras não necessariamente implica palavras de amor. Sabe-se lá que relações e quais posições uma mulher pode estar repetindo quando se encontra envolvida com um cara que só a critica e coloca pra baixo… Ofensas podem envolver tanto como palavras apaixonadas, dependendo dos ouvidos que as escutam.

A outra cara do amor é o deslumbramento, o arrebato. É bom? É. Mas quando se é arrebatada pra muito alto não é prudente que o outro seja a única possibilidade de amortecer a queda.

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