Dia desses encontrei um amigo escritor.

Não encontrávamos há meses, talvez anos, posto que esse negócio de ter vida social é um luxo que eu não tenho tido. 

Depois de muitas cervejinhas, ele virou pra mim e disse que eu andava “muito feminista”. Que ele não entendia essa necessidade, que eu sempre tive espaço no meio literário e na internet, talvez até mais do que ele.

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Não consegui nem explicar na hora, só consegui dizer que estava faltando empatia e que por ele não ter passado o que eu passei, dificilmente entenderia.

Vou contar pra vocês o que eu passei. Só uma ou duas coisinhas.

Quando fiz meu primeiro blog, o brazileira!preta, eu tinha uma relação bastante próxima com os leitores. Muitos deles foram fantásticos, me mandavam presentes e várias vezes me salvaram a vida com uns trocados. Mas também fui alvo constante de ameaças e xingamentos. Meus blogs nunca tiveram comentários, então as pessoas se davam o trabalho de fazer emails falsos para isso. Na época eu não relacionava esses fatos a machismo ou misoginia e tirava uma onda.

Um cara chegou a fazer um blog pra me xingar e ameaçar. Eu achava que era alguma espécie de desejo reprimido e até fazia uns posts tirando com a cara dele, o que o deixava ainda mais furioso. Eu nunca temi nenhuma dessas ameaças, assim como não temo as ameaças que recebo hoje.

Mas eu ainda não sabia que elas só aconteciam porque eu sou mulher.

Porque eu era uma mulher que ousava viver, beber, fazer sexo e escrever. O cara me chamava de puta, de judia nojenta, de feia (rs) e abusava desses xingamentos machistas pra me colocar “no meu lugar”.

Se eu fosse homem, isso ia acontecer?

Se eu fosse homem, o cara ia ler meu blog diariamente pra escrever posts de ódio sobre coisas que dificilmente tinham a ver com o que eu escrevia e sim com o que eu fazia com a minha vida pessoal e com a minha aparência? E os outros todos que criaram emails falsos ou mesmo os que escreveram sem se esconder, teriam me desqualificado como fizeram?

Quando saiu meu primeiro livro, o Máquina de Pinball, rolou uma repercussão bem bacana. Isso teve a ver com meu blog, que era bem conhecido, e teve também a ver com a Conrad, que não apresentou meu livro como “chick lit”, um rótulo bem ridículo, e sim como literatura pop, onde fico bem mais confortável – e tem bem mais a ver também. Não faltou gente me xingando, sempre ataques pessoais, mas com isso eu já tinha aprendido a lidar, considerando que publico na internet desde 1998 e era xingada desde então.

Percebi a diferença editorial quando fui pra Planeta, em 2004, e tive que brigar com o editor que sugeriu nada menos do que dezesseis capas horrorosas para o Vida de Gato, meu livrinho querido, todas elas tentando me enfiar na subcategoria que é a “literatura feminina”. Rechacei todas e acabei obrigando a editora a ficar com a do meu amigo Victor Hugo, que tinha entendido tudo.

Homem algum na literatura foi empurrado para a subcategoria “literatura masculina”, porque, adivinha? Isso não existe.

Sem contar as vezes que senti que meu trabalho não era levado a sério por ter elementos autobiográficos. “Confessional”, gostam de dizer. Alguém chamou Bukowski de confessional? Henry Miller? Fernando Pessoa? Alguém colocou a literatura deles em questão por causa dos elementos autobiográficos? Eu acho que não.

E estamos falando apenas de carreira. Exclusivamente. Nem vou falar de outras situações e outros porquês de eu ser “muito feminista” hoje em dia.

E você, colega, já parou pra analisar quantas das coisas que aconteceram na sua vida profissional tiveram a ver com você ser mulher?

Quantas vezes aquele cara que trabalhava com você te desrespeitou, quantas vezes seu trabalho já foi desqualificado, quantas vezes nem te deram ouvidos por você ser mulher? Quantas vezes um subordinado já ficou puto e te chamou de “mal comida” pelas costas, quantas vezes não te descreditaram em uma reunião? Quantas vezes você já sofreu com a praga da competição feminina, que é mais um sintoma do machismo internalizado nas mulheres?

Não é fácil se dar conta disso.

Mas mais difícil ainda é achar que o mundo é assim e tudo bem.

Não está tudo bem e estamos aqui para ajudar a promover essa mudança.

Então, sim: muito feminista e com orgulho, até que alcancemos uma equidade real.

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