Por muitos anos, eu não me sentia como mulher.

Eu também não me sentia como homem, mas o fato é que eu não enxergava as mulheres como um grupo no qual eu pudesse me encaixar. Eu não tinha os cabelos compridos e esvoaçantes, não tinha o nariz fininho de princesa e nem o rosto de boneca de porcelana. Ninguém me tratava como se eu fosse delicada e meiga, o que eu ouvia era que parecia ser mais forte, mais resistente, mais superlativa. E nada disso combinava com ser mulher.

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Demorou muito tempo para que eu entendesse que as pessoas tinham as mulheres brancas como representantes de todas as mulheres. Na televisão, nos locais de destaque, nos desenhos animados e nos concursos de beleza, as mulheres sempre eram brancas – e as características que eram associadas com mulheres também eram brancas. Para mim, de pele marrom, “sem o pau” do nariz, com um cabelo que nunca estava solto, ser uma mulher não me era permitido.

No fundo, essa proibição não era apenas de gênero, mas de humanidade. Se não sou mulher e nem homem, o que sou? Talvez, por isso, os apelidos que me animalizavam eram tão recorrentes. Meu máximo de humanização aconteceu quando começaram a me chamar de “Bob Marley”, por causa do meu cabelo crespo. Eu tinha uma espécie de black em crescimento, já que o cabelo não “pesava” e não “descia”. Mas não eram dreads, então eu não entendia porque me chamavam de Bob Marley. Pensava: “um homem?” e sentia um desconforto inominável.

Quando me descobri negra, já era adulta. Já tinha alisado o cabelo e também parado de alisá-lo. Já tinha decidido cortá-lo bem curtinho, para que o crespo crescesse livre, e até já começava a refletir sobre questões do racismo. Um dia, uma amiga me convidou para fazer parte de um grupo de ativismo de mulheres negras; ao me ouvir falar que eu era “miscigenada”, me disse para nunca mais fazer o jogo do racismo. Fui batizada com a negritude. Era minha, eu era a própria negritude. E, pela primeira vez, tive mulheres negras como referências. Mulheres, como eu, que passei a fazer sentido. Finalmente.

 

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