“Sou um indivíduo e não uma dama”, disse Maria Lacerda de Moura em 1928, respondendo à ofensas e acusações que recebeu por suas posições.

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Nascida em 16 de maio de 1887, de uma tradicional família mineira, Maria Lacerda foi uma revolucionária muito a frente do seu tempo. Professora, logo mudou-se de Barbacena (onde era muito mal vista e mal falada). Em 1920, no Rio de Janeiro, fundou a Liga para a Emancipação Intelectual da Mulher que defendia, entre outras coisas, o sufrágio.  Mas não só, pois, palavras dela mesma, anos depois:

Em que consiste a emancipação feminina? De que serve o direito politico para meia dúzia de mulheres, se toda multidão feminina continua vitima de uma organização social de privilégios e castas em que o homem tomou todas as partes do leão?

Ela passou a questionar o movimento sufragista quando notou que essas mulheres viviam uma dualidade: de um lado pregavam igualdade, do outro exploravam mulheres mais pobres para manter seu status de madames:

Ha apenas a preoccupação de se jogar migalhas na bocca escancarada da fome, talvez para que nos deixem em paz

(…)

E a miséria está de tal modo humilhada, deprimida, que nem forças tem para devolver, orgulhosamente, os restos que se lhe atiram através dos esplendores dos salões elegantes, por entre as pontas dos dedos enluvados para que não volte um salpico das calçadas a enlamear-lhes as mãos dadivosas.

E talvez isso seja um bom resumo de quem essa maravilhosa foi: uma mulher capaz de confrontar todas as ordens e ideias vigentes, inclusive as suas. A verdade é que, como uma pensadora incansável, Maria sabia que o raciocínio não era algo estático, imutável. Que a ânsia por buscar a verdade e a igualdade não condizia com ser incapaz de mudar de opinião ou só associar-se com quem nos reafirma, sem gerar questionamentos.

Um dos sintomas disso é que Maria Lacerda é considerada uma das primeiras feministas do Brasil, uma anarco feminista, mas não deixou de tretar com os anarquistas (ao defender o sistema de ensino do comunismo) e teve seus atritos com os comunistas (ao recusar partidos e hierarquizações) e mesmo com algumas feministas (quando considerava que elas não propunham romper com o sistema, mas apenas integrar-se a ele). Para ela,  a luta contra a cultura machista imposta ainda hoje às mulheres, deveria ser ampla e insubmissa:

Quem pode falar em emancipação feminina, em emancipação humana, dentro da lei, dentro da ordem social?

Ou seja, era claro que qualquer instituição que colocasse as mulheres em uma posição inferior, menos humana, deveria ser questionada e combatida. Fosse ela representada pelo casamento tradicional ou pela opressão social. Por isso sua bandeira central talvez seja a emancipação intelectual como possibilitadora de todas as outras: o acesso e o estímulo ao conhecimento e ao pensamento crítico. Dificuldade que ela própria viveu, pois na sua época só era permitido certo nível de conhecimento às mulheres.

*agora mudou totalmente, né, mores. rs*

Além de ser considerada uma das primeiras feministas do país, Maria Lacerda também era uma intelectual, vegetariana, pacifista e defensora de direitos animais. Feito muitas de nós. Só que em 1920 no Brasil.

maria-lacerda-mouraOu seja, essa mulher é foda!

Por ser politicamente muito ativa, ela traçava o paralelo constante entre a submissão social e a cultural. Aquele papo de que a mulher é o proletariado do proletariado era claro para ela:

Por isso, é duplamente escrava: é escrava do homem e é escrava social com o seu companheiro, quer faça ele parte do proletariado, quer seja rei da industria como Ford ou primeiro ministro, ditador, como Mussolini.

Mas uma das coisas que me deixou mais destrambelhada no que ela escreveu e li foram os comentários sobre amor e sexualidade. Não por serem algo absurdo, mas porque me parecem impensáveis para sua época. Para ela, já que a sociedade como conhecemos era fruto de relações desiguais, a única forma que a mulher teria de atingir a igualdade seria buscar a independência individual (econômica) e a liberdade sexual. Intercalando períodos de profundo otimismo e períodos de profundo pessismismo (quem nunca), Maria permaneceu sempre fiel em sua busca por conhecimento libertador.

A verdadeira sabedoria nos ensina que governar os outros é destruir-se a si mesmo. É negar-se a si proprio, é adormecer as mais bellas forças cryptopsychicas e despertar os instinctos selvagens para a megalomania da autoridade, e do despotismo.

Só temos o direito e o dever de nos governarmos a nós mesmos.

E, por isso, ela é uma mulher maravilhosíssima <3

Sobre ela vale ver esse documentário de meia hora feito na USP e ler tudo que encontrar sobre ou escrito por ela.

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