Não lembro exatamente quem me falou pela primeira vez da Maura Cançado, mas lembro que ela surgiu como uma recomendação diante de uma reclamação recorrente que eu tinha na época da faculdade. Eu estava cansada dos personagens desequilibrados rasos e estereotípicose achava que havia passado da hora de deixar que os próprios loucos falarem de si.

Mas a verdade é que nunca cheguei a ler nada dela nessa época. Meu primeiro contato veio depois, com a criação da sua página de Facebook que está cheia de trechos, inéditos e imagens. Eu fiquei encantada. A página foi criada pela Daniela Lima, possivelmente a grande responsável pela retomada atual desta escritora e personagem fenomenal.

MauraDaqui

E eu falo em personagem propositalmente, pra criar um paralelo com esses personagens planos que eu tanto odiava na faculdade. Até agora só li “Hospício é Deus” (e alguns poemas soltos) e neles a Maura fala da própria instabilidade e das instituições onde viveu e, por isso mesmo, fala como uma humana (com conflitos, profundida e compreensão de muitos processos da própria loucura). E eu boto fé que muito da brutalidade presente nos relatos dela ainda tem eco fortíssimo na sociedade exatamente por isso: porque precisamos de personagens que desconstruam o que é ~loucura~ e nos lembrem da humanidade por trás da doença.

Não dão ao louco nem o direito de ser louco. Por que ninguém castiga o tuberculoso, quando é vítima de uma hemoptise e vomita sangue? Por que os ‘castigos’ aplicados ao doente mental quando ele se mostra sem razão?

Talvez por isso mesmo seja difícil exotificar a Maura e resumir tudo à essa ~loucura~ que nos fascina, porque ela constatemente nos lembra que, sim, existiu para além disso, foi múltipla e disruptiva.

Existo desmesuradamente, como janela aberta para o sol. Existo com agressividade.

A biografia da Maura inclui ter casado aos 14 anos, tido um filho aos 15, separado 12 meses depois, para o horror da sua família conservadora, tentando voltar a estudar mais tarde (“mas as freiras não a puderam aceitar porque já havia sido casada, era separada, péssimo exemplo para as outras alunas, diziam elas” segundo a Vera Brant), ter sido aviadora e ter escrito sobre e dentro de instituições psiquiátricas, como diz a Daniela:

Ela escrevia de dentro do hospício, e isso tem uma força sem paralelo. Fora o fato de que ela continuava publicando no “Jornal do Brasil” internada. Os amigos davam voz a ela.

Carlos Heitor Cony disse que ela o procurou pedindo ajuda para escrever um romance. Ele, acreditando que não se ensina ninguém a escrever, tirou o corpo fora e disse: “Ajudei-a apenas materialmente, dando-lhe uma máquina de escrever. O resultado foi O Hospício É Deus”.

Lendo ela, a sensação que fiquei foi que essa vida cheia de altos e baixos se transformou em um tipo de texto particular e fluído, que muito mais gente deveria conhecer porque é uma obra maravilhosa, mesmo. Não por nada ela teve fãs como Clarisse Lispector e Ferreira Gullar.

Vim do sonho: um monge louco,
olímpico, acordou-me.
Homem de vestes alvas, onde chegará meu braço,
alongando-se, misturando-se às algas:
Sou leve, sílfide talvez, e no voo,
pareço rosa recuada.
Ninguém me salvará
da mentira que sou.
Senhor de vestes sombrias, quantos mundos visitei?
Minh’alma, nua, ela se permuta com a rocha.
Se alguém me procurar,
não pertenço a ninguém.
Senhor, quero um breviário
de contos infantis: carochinha (para ler no pátio
cinzento, prisão da rainha)
Senhor, falo coisas da vida, vim do sonho
ou da loucura?
Senhor, que dor é essa
abrigando meu amor?

Mesmo assim, salvo raros acadêmicos e amantes dedicados, a escrita da Maura ficou no vácuo por mais de 20 anos até a atual reedição da Editora Autêntica em uma caixinha linda com seus dois livros publicados em vida.

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Ela nasceu dia 27 de janeiro de 1929 em Minas Gerais e morreu em 1993, sem escrever mais. E foi praticamente esquecida, deixada de lado, repassada só como segredo de iniciados, mas agora ela é de todas nós. Bora aproveitar <3

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