Uma das coisas que é mais notável nas ciências é que as mulheres ainda são poucas e em algumas áreas quase ausentes. As cobranças e os desafios sobre as mulheres que rumam para a vida acadêmica e científica são altos e os incentivos são baixos. A mulher cientista precisa sempre provar que é boa e competente, apesar de ser mulher, como se isso fosse uma desvantagem.

Os dados são claros: o número de moças que escolhe as ciências, em especial nas áreas de Exatas e Tecnológicas, é bem menor que o dos rapazes. No ano 2000, somente 20% do graduandos de Física no Brasil eram mulheres. A mesma taxa nos Estados Unidos, no Reino Unido e em países como Japão e Suécia, não chega a 15%. O começo da jornada, em geral, já é difícil por serem minoria, mas nos níveis seguintes o gargalo aperta ainda mais.

Quando analisamos a classificação conferida pela bolsa de produtividade do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) notamos a diferença: no começo da carreira as mulheres despontam com pouco mais de 1/3 dos pesquisadores, em todas as áreas. No topo da tabela, os bolsistas de produtividade 1A, as mulheres caem para 23%. Quando a área é de Exatas, a diferença cai para 3% das bolsas (dados de 2005).

Isso não ocorre apenas no Brasil. Vemos menos mulheres em áreas como Física e Matemática. As mulheres são minoria em congressos, simpósios e eventos, ganham menos e são mais cobradas por suas escolhas pessoais, como casar e ter filhos. E existem várias razões para isso, sendo a histórica a primeira delas. As mulheres demoraram para conseguir cadeiras nas escolas e universidades e não eram permitidas em laboratórios. Marie Currie, por exemplo, só conseguiu um emprego depois que seu marido morreu e gostava de levar suas alunas para conhecer os laboratórios, além de preparar aulas voltadas para o ensino de meninas e moças.

Foi apenas na segunda metade do século XX que mudanças começaram a ocorrer, em especial pela militância do movimento feminista dos anos 50 e 60. Mas apesar do número crescente de mulheres nas carreiras científicas, elas têm chances menores de sucesso e ascensão na carreira: são menos contempladas com bolsas de produtividade do CNPq, estão sub-representadas nos cargos administrativos de várias universidades e entre os acadêmicos da Academia Brasileira de Ciências. Dados no Brasil são incipientes e esparsos, muitas vezes dependendo do esforço pessoal das pesquisadoras, pois é algo que ainda não foi investigado com profundidade no país.

Distribuição de bolsas do CNPq segundo a modalidade e o sexo do contemplado, dados de 2001 e 2002.

As mulheres entram, com expressividade, nos enquadramentos funcionais de universidades e centros de pesquisa nos anos 80 e 90, devido ao grande investimento do governo federal nas área de ciência e tecnologia. A proporção de bolsistas do sexo feminino do CNPq cresce nas diferentes modalidades, mas diminui conforme cresce o nível hierárquico da bolsa. Ou seja, muitas mulheres passam pelos primeiros estágios da capacitação científica, mas depois “somem” ao longo do caminho, por falta de reconhecimento dos pares.

Um dos motivos é a pressão para ter filhos e se casar. Muitas cientistas sentem que precisam escolher entre constituir família ou seguir a carreira sem parar para ter filhos. Essa interrupção não é contabilizada no caso de concessão de bolsas de produtividade do CNPq, que são reavaliadas a cada três anos. Se a cientista apresentou queda no número de publicações e resultados, não é porque a pesquisa parou, mas é porque ela precisou sair para cumprir a licença maternidade. Depois, quando apresenta resultado menor do que seus colegas, reforça o estereótipo de que é incompetente e que não leva jeito para a área.

Segundo os dados do CNPq, em 2002 havia para cada pesquisador, 0,84 pesquisadora cadastrada no Diretório de Grupos de Pesquisa; essa relação diminui muito na concessão da bolsa de produtividade: para cada pesquisador que é contemplado com essa bolsa, há 0,48 pesquisadora na mesma situação.

Jacqueline Leta (UFRJ)

Distribuição de cientistas titulares e associados na Academia Brasileira de Ciências, segundo o sexo, em 2003.

 

Quem apela para a ciência para dizer que homens são mais inclinados às carreiras científicas não tem respaldo da própria comunidade para isso. Lawrence Summers, ex-presidente da Universidade Harvard, nos EUA, disse que a genética era a responsável para o menor número de mulheres nos níveis mais altos da ciência e foi severamente criticado por suas colocações. O que dificulta a vida de muitas cientistas é o trabalho de se ter projetos e financiamentos aprovados. Dados do Conselho de Pesquisa Médica da Suécia, em 1997, mostraram que, para conseguir verba para projetos e laboratórios de pesquisa, as cientistas tinham de ter uma produção 2,2 vezes maior que a dos colegas homens.

O relatório do Massachusetts Institute of Technology (MIT), em 1995, que avaliou a situação das mulheres no instituto mostraram que elas estavam extremamente insatisfeitas com salários, concessão de verbas e até o tamanho dos laboratórios. Aqueles liderados por homens eram maiores e melhor equipados. Durante vinte anos, o número de professoras do MIT não cresceu, ficando estacionado em 8%. Dados do Eurostat Labor Force mostram que, enquanto a participação da mulher no mercado de trabalho, de forma geral, era de 1,5%, o crescimento nas áreas científicas era de apenas 0,3%.

 

Quando envolve, além de gênero, também a raça, as cientistas negras têm dificuldades ainda maiores de subir na carreira, em especial nas áreas de Exatas. Cientistas negras afirmaram ser, constantemente, confundidas com assistentes de laboratórios, segurança ou faxineiras por colegas e estudantes. Dados do Center for WorkLife Law, da Universidade da Califórnia, mostram que 48% das negras e 46,9% das latinas sofreram algum tipo de discriminação no trabalho. Quase 60% das latinas sofreram reações negativas e racistas por expressarem raiva e descontentamento com as atitudes dos colegas e entre as negras 76.9% delas precisam, constantemente, provar que sabem o que estão fazendo e que são competentes.

 

O que fazer?

Se o problema é a volta da licença-maternidade, as instituições poderiam liberar a docente de dar aulas para que coloque sua pesquisa em dia. O tempo gasto com preparo de aulas, correções, provas e burocracia, consome o trabalho dentro dos laboratórios e ao voltar de uma licença tão longa, o trabalho se acumula. Outra solução seria ocultar o nome da pesquisadora na avaliação de bolsas e financiamentos, para que mulheres não tenham que apresentar produção maior do que seus colegas homens.

A reestruturação da carreira docente poderia evitar que estereótipos fossem reforçados. As estruturas das instituições acadêmicas e científicas são dominadas, em geral, por homens, o que reforça o estereótipo de que o homem é o único apto a assumir tais cargos e posições. Combater assédio e violência contra as mulheres em universidades e instituições de pesquisa, já desde a graduação também seria uma forma de coibir comportamentos machistas e discriminatórios nos níveis hierárquicos mais altos.

O que fica depois de tudo isso? De que a estrada é longa. Mesmo que as mulheres sejam maioria nas salas de aula da graduação, nos níveis mais altos ainda somos minoria.


Double Jeopardy? Gender Bias Against Women of Color in Science
Black Women Defy Odds to Overcome Barriers in STEM Only to Be Mistaken as Janitors

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