Hoje é um dia de luta, de greve, de demandas necessárias e básicas.


Eu luto pelo aborto, pelo fim de todas as formas de violência misógina, racista, lesbofóbica, transfóbica, etc, pela igualdade salarial, pelo respeito cotidiano mínimo, enfim. Mas também luto para que a gente reconfigure na nossa cabeça a forma como vemos umas às outras. Já disse a Dunbar lá nos anos 70:

Eu sou revolucionária. Eu sou feminista. Não há possibilidade de me libertar a menos que todas as mulheres sejam libertas.

Conviver com mulheres foda me trouxe a perspectiva de que eu também posso ser foda. Me fez reconhecer a garra das mulheres que me criaram para ser diferente em um mundo igual. Me fez notar que, entre os caras, só quando eu argumentava chamavam de arrogância. Me fez conhecer melhor a história das mulheres que vieram antes de mim e isso me deu força pra ser maior. Me fez entender que aquela autora não ser publicada ou republicada por grandes diz mais sobre a editora que sobre a autora.

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Conviver com mulheres foda me ajudou a começar um processo de fazer as pazes comigo mesma e entender que o meu sufoco vinha da régua da feminilidade, não de ser mulher. Eu notei que não preciso me negar como mulher mas tampouco preciso viver o personagem que me dizem do que é ser mulher pra existir e ser respeitada.

Eu sou. E sendo, sou mulher. Diferente do que crescemos vendo nas bancas e televisões, existem vários tipos de mulheres. E não é só a aparência que nos faz múltiplas, somos amplas, com corpo mente alma psique e o que mais. Enfim. Somos gente.

Pra alguns de vocês essas coisas podem parecer besteira, mas ser mulher é crescer ouvindo e vivendo o oposto.

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É crescer achando que, na história, fomos ou bruxas ou santas. Que tem duas poetas boas no Brasil. Que se tu não for sensual e recatada ao mesmo tempo não vai casar. Que se não casar tua vida deu errado. E assim vai.

Por isso conviver com mulheres muda tudo. A gente se ensina a ser livre. No dia-a-dia. A gente aprende que existe se vendo na outra, quando ninguém mais nos mostra.

Não tou dizendo que é um caminho fácil de muito abraço e conforto o tempo todo, porque precisamos aprender a reconfigurar a nossa mente e parar de ver a outra como inimiga e concorrente e isso demanda tempo, muita vontade e dedicação. É preciso desaprender o oposto, já que crescemos achando que nos valorizamos pelo desvalor da colega, que devemos competir por afeto feito amor fosse guerra, que não se pode dividir nada nunca, e que apontar é falar da outra e não de nós mesmas. Mas nada disso é quem somos, podemos ser muito muuuuito maiores.

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Por isso essa luta nos ultrapassa ao mesmo tempo nos une. Nossa luta é por ser gente e quando uma mulher é acolhida e se colore de humanidade, todas nós nos tornamos mais humanas.

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