Quando vi a reportagem do G1 sobre a mensagem preconceituosa que uma moça com deficiência recebeu de alguém duvidando de seu namorado, primeiro revirei os olhos. Mas, logo depois, senti aquele gosto amargo de quando você ouve uma coisa que é próxima demais de você para apenas se irritar e não falar nada.

capacitismoA mensagem asquerosa

Principalmente porque grande parte dos comentários de quem leu foram no sentido de não acreditar que alguém possa ser tão baixo, mas gostaria de mostrar que atitudes como essa estão mais próximas do que se pensa, guardada as devidas proporções.

Nunca recebi uma mensagem de ódio tão explícita sobre o fato de eu, mulher com deficiência, namorar alguém. Mas o estranhamento é claro que já senti, e algumas vezes, quando estava em companhia de namorado ou algo do tipo. E o que mais me preocupa quando algo extremado como isso acontece é que muitas pessoas que estranhavam o fato de eu namorar não se identifiquem, em qualquer grau, com a autora da mensagem preconceituosa.

Quando se é pessoa com deficiência você pode estar de mãos dadas com alguém, pode estar num jantar romântico, pode estar abraçada na piscina, não importa: é bem provável que perguntem ao seu namorado(a) “vocês são irmãos?”

Não duvide, isso acontece com muita frequência. E isso porque muito mais pessoas do que vocês imaginam concordam, lá no fundo, com a moça da mensagem.

Muita gente duvida da capacidade de alguém com deficiência ter um namorado e associa imediatamente as pessoas próximas com irmãos. E duvidar da capacidade da moça de ter um namorado bonito, por ter deficiência, foi exatamente o que a preconceituosa autora da mensagem fez.

Porque não adianta achar um absurdo despropositado a autora da mensagem dizer isso, mas achar normal endeusar o namorado de pessoas com deficiência por estarem com elas. E isso é outra coisa que acontece com muita frequência e que é só mais uma nuance do preconceito: as pessoas acreditam que para alguém namorar “gente como eu”, tem que ser alguém muito bom e virtuoso, capaz de passar por cima do físico. E, convenhamos, não é bem assim. Além disso, esse pensamento é extremamente danoso porque faz com que muitas pessoas com deficiência fiquem presas em relacionamentos abusivos por acharem que o companheiro é um anjo sem asas e que ela tem que tolerar qualquer coisa, afinal, ele aceita a sua deficiência.

Quem achar que estou mentindo, pergunte aos meus amigos quantas vezes eles já foram parabenizados por estarem comigo em uma festa, um show, um bar. “Nossa, que bom que você trouxe ela”. Imagine o que pensam sobre quem, por ventura, me namore.

Mais um aspecto, que discutíamos no fórum esses dias era sobre ter amigos que te apresentem pretendentes quando se tem deficiência. E a maioria das moças com deficiência disseram “muito difícil me apresentarem pretendentes, e se o fazem, geralmente, são outras pessoas com deficiência”. Quantas vezes já me afastei de meninos com deficiência só porque sentia que as pessoas queriam nos shipar, incansavelmente? “Vc viu aquele outro cadeirante? Deviam se conhecer!” Como se todos os outros aspectos, como gostos, afinidades, idade fossem nulos ou banais, bastava os dois ter alguma deficiência. Afinal, estranham eu namorar alguém, desde que esse alguém não seja “alguém como eu”. Se for, é até incentivado.

capacitismo2

Todas nós sabemos como os padrões estéticos relegam muitas mulheres a solidão. Inclusive já tratamos aqui algumas vezes (a solidão da mulher negra, da pessoa trans, do preconceito com mulheres “feias” que pegam “gatos”). Quando, ainda assim, mulheres com deficiência conseguem construir um relacionamento legal elas são desafiadas a provar que conseguem manter suas relações e do que são capazes de “fazer”, como ter filhos, por exemplo.

Eu tenho a felicidade de conviver com pessoas com deficiência de todos os jeitos e posso ver que elas são perfeitamente capazes de ter qualquer tipo de relacionamento, quando tem uma chance. Mas, enquanto muitas pessoas ainda nos enxergarem como seres de outro mundo, ficaremos a mercê desses julgamentos sobre nosso lugar e sobre o que nos é permitido.

Não há como diminuir atitudes preconceituosas como essa enquanto cada um não admitir os seus próprios preconceitos para com as pessoas com deficiência e coibi-los. Enquanto as pessoas ainda apresentarem dificuldade para ver além da nossa deficiência, sem também ignora-la, teremos comportamentos absurdos sentidos na pele. Mas não adianta achar que isso só acontece em casos extremados como o da reportagem. O capacitismo está no nosso dia-dia.

, , ,