Se tem uma coisa que as pessoas adoram é chamar mulher de louca.


Escreveu não leu estamos sendo acusadas de loucura. Qualquer expressão de sentimento ou variação de humor do sexo feminino é justificada dessa forma. Ou tpm, é claro, que segundo o imaginário de alguns, não passaria de uma desculpa esfarrapada para exercitar livremente a loucura que já é inerente ao sujeito feminino, mas isso não vem ao caso. O que vem ao caso é que vocês, queridas leitoras, não são loucas (ao menos não loucas-de-todo, segundo Lacan). Uma ou outra pode até ser, mas não por ser mulher. Não está cheio de homem louco por aí também?

 

 

É bem verdade que, na época que Freud teve a coragem de dizer que a origem da histeria era sexual –e ser muito mal visto por isso, afinal, como alguém tem a pachorra de ligar sexualidade às moças de boa família de Viena, não é mesmo?– e deveria ser tratada pela fala, o pessoal adorava chamar as mulheres de loucas e tratar na base da internação e eletro-choque as que, seja lá por que razão, dessem uma piradinha, uma rebeladinha, uma chateadinha. E para completar, ainda nos dias de hoje, as pessoas tem mania de confundir histeria e feminilidade, ainda que o número de homens histéricos cresça visivelmente diante dos nosso olhos, e, a partir disso, dizer que as mulheres são TODAS alguma coisa. Mas histeria não é sinônimo de feminilidade. E nem de loucura.

 

 

Então vamos lá… Quando somos crianças, ainda sem saber nada da vida, a gente observa que mulheres são aquelas que nao tem o que o amiguinho, o irmãozinho, priminho ou um fulaninho qualquer, tem. Mulher é, então, quem não tem pênis*. Foi isso que Freud notou na fala das crianças em 1900 e é o que se pode notar até os dias de hoje: “ela viu, ela sabe que não tem e ela quer ter”. Ou seja, a mulher é marcada, desde pequena, pela privação. Pelo que lhe falta, ainda que ali não falte nada.

 

O que falta à mulher é um significante que a represente, que a defina enquanto mulher. Não existe no inconsciente um significante que represente a mulher, o que leva Lacan a dizer que a mulher não existe. E antes de acusarmos Lacan de machista, vale dizer que, justo por não haver um significante que nos diga o que é uma mulher, não se pode fechar um conjunto, não se pode dizer: “todas as mulheres são loucas”, “todas as mulheres falam demais”, “todas as mulheres são putas ou beatas”. Não existe “todas as mulheres”, porque há de se tomar uma a uma. Olha que querido, Lacan. Ele diz que cada mulher é uma exceção. E como exceção, cada mulher deve “descobrir” o seu ser de mulher, saber fazer com essa falta significante. E esse significante não é transmitido por sua mãe, nem por sua avó e nem pela vizinha, porque elas também não tem uma resposta para isso e também estiveram as voltas com essa questão. É o famoso “ninguém nasce mulher, torna-se mulher”, de Simone de Beauvoir.

 

Agora, enquanto cada uma de nós “inventa” o nosso ser de mulher, o mundo lá fora fica dizendo como devemos ou não pensar, agir e ser. Fácil: não é. E fica ainda mais complicado quando, ainda por cima, nos acusam de loucas enquanto estamos tentando. É mesmo de enlouquecer.

 

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*Ao menos é o que diz a anunciação do médico ao fazer a ultra. Sabemos que algumas possam vir a ter pênis. E homens possam não ter também.
 
 
 

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