Outro dia ocorreu uma discussão acerca da antológica apresentação da Beyoncé no VMA.

Como ela pode se dizer feminista usando um maillot de pedrarias e com aquela bunda de fora se esfregando em um polideinci?!

Eu não consigo entender esse raciocínio; as pessoas esperam que as feministas se vistam e se portem como? Pudicas? Respeitáveis? Que não se vistam como vadias?

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Essa senhora da pintura é Sarah Grimké, que foi, junto com sua irmã Angelina, a primeira feminista abolicionista dos Estados Unidos. Ela era maravilhosa e sua história foi romanceada pela escritora Sue Monk Kidd no livro “A invenção das asas”, publicado pela Editora Paralela (um braço da Companhia das Letras) e um dos melhores livros que li neste ano, senão o melhor. Falei dele na Folha de São Paulo.

Na época de Sarah, em mil oitocentos e bolinha, as mulheres deviam se cobrir e não podiam sequer ter a palavra em público (isso mesmo: falar). Ela foi proibida de ler livros quando viram que estava “tendo ideias”. Imaginem então rebolar com um maillot de pedrarias, né?  As mulheres deviam literalmente “se dar o respeito” ou estariam arruinadas.

Então deixa eu contar pra vocês: uma mulher fazer o que quiser com seu corpo diante dos holofotes enquanto se auto-proclama feminista é, sim, uma grande coisa. A mulher não se auto-objetifica. Quem faz isso são os outros, numa sociedade em que a mulher é tratada não como sujeito, mas como objeto. O corpo é da mulher e ela faz o que bem entender dele, inclusive esfregar no polideinci ao vivo. Mulheres sexualmente livres e donas de seus corpos não deveriam ser motivo de polêmica.

Sarah e todas outras feministas lutaram e lutam sabe pelo que? Liberdade. Liberdade das mulheres poderem fazer o que quiserem. Liberdade das mulheres para se vestirem como quiserem, dançarem até o chão se quiserem, usar maillot de pedrarias, shortinho, saia, decote, terno, bermudão, cueca e o que for sem serem julgadas. É claro que estamos longe de atingir essa liberdade toda, já que ainda existe a palhaçada da dicotomia entre bunda/cérebro, santa/puta, mulher pra casar/mulher fácil. É inacreditável como as coisas mudaram pouco. Então, colegas, cada passo é um grande passo, e meter um letreiro dizendo FEMINISTA num palco não é coisa pouca.

Podem até dizer que é uma estratégia de marketing, e pode ser que seja mesmo; agora, se as pessoas conseguem conhecer e digerir o discurso feminista assim, pra mim é uma baita de uma conquista. Por mim podem englobar princípios feministas dentro da publicidade que vou achar maravilhoso, pois isso significa que o movimento está sendo digerido pelas pessoas.

“Ai, mas estão se apropriando de um movimento social pra vender shampoo!”

Ok, e será que preferimos que as propagandas sigam sendo sexistas e tratando mulher feito idiota ou queremos que o feminismo se espalhe por todos os lugares?

A gente aqui prefere assim: feminismo em todos os lugares.

Bom fim-de-semana a todas que já estou chacoalhando meu esqueleto ao som de

“A bunda é minha e eu faço com ela o que eu quiseeeer”

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