Pode parecer apenas patético, mas ainda vivemos em um mundo onde muitos homens confundem afeto/desejo com controle e acreditam que tudo que falta para a maior parte das mulheres é ser salva.

Shakespeare tem uma comédia chamada Megera Domada, onde um pai diz que sua filha mais jovem, a cobiçada Bianca, só poderá se casar depois que sua filha mais velha, a ácida Catarina, se casar. Mas ninguém quer casar com ela e ela não quer casar com ninguém.

O que torna Bianca desejável é ser o exato oposto de Catarina, uma mulher dócil.

10-coisas-que-odeioEu acho que, nessa sociedade, ser homem e babaca te torna merecedor do nosso tempo

De toda forma, disso surge uma trama onde os pretendentes de Bianca recrutam Petrúquio, um homem da nobreza que busca se casar com uma mulher rica. Após o casamento Petrúquio começa seu processo de domesticação de Catarina e, ao final, ela se torna uma esposa mais obediente que a própria Bianca.

“Ai, mas é Shakespeare, as coisas mudaram”

Mais ou menos, já que o enredo poderia ser resumido nesses dois versos de uma música regionalista gaúcha:

Mulher pra mim é como redomão

Maneador nas patas e pelego na cara

(Basicamente o significado é que mulher, pro autor, é como um cavalo em processo de doma e, para tanto, ele usa os mesmos recursos de domar cavalo)

Mas não paramos por aí. Megera Domada tem um zilhão de versões recentes, incluindo o filme juvenil (de 1999) “10 coisas que odeio em você” que fez tanto sucesso que, em 2009, virou série de TV. Indo um pouco além, a ideia de que tudo que uma personagem feminina precisa é um contraparte dominante e abusivo é o resumo de 50 tons de cinza.

A tua princesa está em outro castelo (junto com o resto dos teus delírios de macho alfa)

E, na real, a própria ideia de que “amor salva” é basicamente isso, afinal, porque insinua que a mulher precisa ser resgatada de uma situação terrível (a vida sem um homem). Pra piorar, dentro dessas seitas patéticas feito PUA, existem muitos capítulos sobre dominar/amansar mulheres (se tiver paciência e um gosto por escrotidão coloca “taming women” no Google, aí).

Por essas e por outras é que, anos atrás, quando um cara disse que me achava parecida com a personagem de Megera Domada, eu respondi sem hesitar: “a diferença é que eu sou só megera, domada jamais!” E essa está longe de ter sido a única vez que um cara achou que precisava me salvar. Então, caras, agora direi algo por todas as megeras indomáveis do mundo, prestenção:

Nós não queremos ser salvas nem domadas. Ser não é um acidente, as pessoas escolhem quem querem ser e nós sabemos e gostamos de quem somos. Não estamos em uma etapa de transição que só será completa por um relacionamento capaz de nos domesticar e tornar dóceis. Não existe vantagem cósmica nenhuma em anular sua personalidade e o nome disso não é amor, é cilada.

Ser assim não nos torna amargas ou solitárias, pelo contrário, nós megeras desenvolvemos afetos que são costurados por respeito e admiração, não por subjugar o outro e levar uma vidinha simplificada. Mas esses sentimentos e, até mesmo, ser como somos, não são para todo mundo. Então se tu prefere desrespeito e anulação, sinto muito. E melhoras aí.

~

Por isso, colegas, pode ser megera e nunca se deixar domar. Pode muito. E pode aproveitar a liberdade da vida indomável para aprender, ler, ter amigos, se divertir, debater e amar. E pode viver essa vida com menos sofrimento e mais alegria, porque nada deixa uma megera mais feliz que ser quem ela é, não quem dizem que ela deveria ser.

(e pode, também, citar estudos que mostram a desigualdade como algo criado e a igualdade de sexos como uma vantagem evolutiva que ajudou os homens e mulheres primitivos a sobreviverem, pra todo machão pretensioso que encontrar)

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