Apesar de políticos se empenharem cada vez mais em decidir por nós, não ter filhos deveria ser uma escolha pessoal tão respeitável quanto ter. Mas não é.

Não ter filhos pode ser uma escolha fácil e óbvia, uma escolha longa e difícil ou até a decorrência de uma série de fatores, assim como ter filhos. Mas, socialmente, não ter filhos ainda é visto da mesma forma que era 30 anos atrás: como egoísmo e demérito.

Ou o popular “vaca sem coração que odeia crianças” (btw, eu não odeio crianças, só gosto de crianças como gosto de adultos: de algumas).

criançasO que eu penso quando dizem que um filho é um amigo para a vida inteira

Claro que isso acontece porque uma mulher que não é mãe bate de frente com o ideal de abnegação que se espera de nós. Essas mulheres são o nemesis daquela que cuida de tudo e todos e é humilde (no sentido de sempre colocar a doação ao outro na frente, não querer nada para si mesma).

Não é a toa que a maioria das mulheres que não são mães ainda pareça carregar uma certa culpa, como se tivesse fracassado em desempenhar o seu papel nesse mundo, ou como se o oposto da maternidade fosse o trabalho ou qualquer coisa que tome nosso tempo “livre”.

Só que o oposto da maternidade é a própria vida.

Calma, vou explicar. Não ser mãe não se relaciona com tempo, amor, dinheiro, presença. Se relaciona com ter a certeza de quem somos, do que somos capazes e do que queremos. E não estou dizendo que ser mãe seja o oposto disso, pelo contrário, estou falando do que cada uma de nós sabe o que consegue e quer fazer com quem é. Nós somos diferentes, afinal, e que bom.

Mas para não ser mãe é preciso ter muita certeza de quem somos e das nossas forças e fragilidades, porque o tempo todo, sem um dia de folga, o mundo vai testar a nossa certeza. Seja com todos os relacionamentos que terminam quando deixamos claro que não queremos mesmo ter filhos ou com todas as insinuações e perguntas cretinas sobre nossos futuros solitários ou nossas vidas vazias.

zzzzEu ouvindo comentários sobre como nunca vou entender a beleza do mundo porque não sou mãe

E essa não precisa ser uma certeza de que não queremos ser mães. Conheço muitas mulheres que optaram por não ser mães, mesmo querendo, porque não tinham estabilidade financeira, emocional ou sabe lá o que. No meu caso, por exemplo, sempre tive a certeza de que não estou pronta. Não porque eu ache que as mães devam ser perfeitas, mas porque sei das minhas limitações e das limitações das pessoas com quem me relacionei. Mas nem isso me impediu de me perguntar muitas vezes: “e se”? “E se” eu tivesse aceitado? “E se” eu tivesse casado e tido filhos? “E se” eu acabar sem amigos nem família?

E a resposta, invariavelmente, foi: mesmo assim, eu não seria feliz diferente. E olhando com cuidado para a minha vida, que não é necessariamente mais fácil ou vazia que a de uma mãe, mas a vida que eu fui capaz de construir, sei que fiz a escolha certa.

¯\_(ツ)_/¯

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