Já falei aqui que não existe signo neste mundo que nos dê uma identidade como mulher. As revistas femininas e livros de auto-ajuda tentam fazê-lo desde sempre, com suposições mil sobre como uma mulher deve agir, se vestir e respirar para ser mais adequada, mais desejável, mais feminina ou seja lá o que achem que uma mulher deva ser.

Havia um tempo em que se tentava dizer que mulher era aquela que usava vestido, queria casar e ter filhos. Se isso fosse verdade não precisaria existir feminismo, de acordo? Todas as mulheres estariam batendo palminhas para o patriarcado e lendo conselhos sobre como conseguir um marido maravilhoso ou ser uma mãe dedicada sem deixar o batom borrar, mas esses semblantes não respondem sobre o que quer uma mulher ou sobre o que ela é. São semblantes apoiados numa lógica fálica, numa lógica masculina que coloca a mulher como incompleta porque confunde falo com pênis e acha, portanto, que a mulher não tem alguma coisa que o homem acredita ter. Mas falo não é pau, pelo amor de Freud. O pai da psicanálise não seria tão bobo. Se o falo tem todo o seu valor na psicanálise é justamente pela sua ausência, porque se ter um pau desse a alguém a garantia de ter alguma coisa ninguém reclamaria que o do coleguinha é maior.

Mas tudo bem, alguma coisa fecha melhor para os rapazes no mundo do semblante fálico, mas para as mulheres não. A crença da mulher no semblante é mais passível de vacilação, pois, como disse um psicanalista bem maravilhoso chamado Jacques-Alain Miller, que por acaso é genro de Lacan, as mulheres são mais “amigas do real”. Isso quer dizer que há nelas uma espécie de intuição sobre a inconsistência do que se diz sobre o feminino. Tudo que se tenta colocar nesse lugar é da ordem de um parecer ser, é semblante, e ainda que semblantes sejam só o que podemos usar para dizer algo do que somos, não respondem sobre o nosso ser.

O que REALMENTE responde sobre o nosso ser? Nada. Freud e Lacan não acharam resposta, portanto não adianta procurar que não tem. Mas isso não significa que seja uma boa ideia desistir de tudo e sair correndo nua pelas ruas, isso dificilmente te deixará feliz e você ainda corre o risco de ser presa. Levanta, sacode a poeira e vambora, cada uma inventar sua própria forma de ser mulher, utilizando os semblantes que caírem melhor, porque é o que temos para tentar buscar nossa identidade.

Mas olha onde está a beleza da coisa, se nada se pode dizer sobre a mulher, pode-se, então, dizer qualquer coisa. Usar salto alto e saia rodada obviamente não torna ninguém mais mulher do que a que usa jeans e coturno, assim como não depõe sobre a feminilidade que uma pessoa só faça sexo com quem ama e a outra transe com quem quer que seu tesão aconselhe. E se um batom vermelho não é segredo de feminilidade, podemos escolher usá-lo ou não de acordo apenas com nossa própria vontade. Se ninguém pode te dizer o que é uma mulher, você pode ser o mais variável que quiser. Inclusive todo tipo de oximoro, porque mulher nem sempre faz sentido.

Mas é claro que as coisas são menos simples que isso, e esse impossível de dizer sobre o feminino pode causar uma inquietude bem insuportável. É daí que vem grande parte das queixas femininas, como a busca sem fim de algumas moças por uma imagem ideal, por exemplo, ou a demanda de amor direcionada a um homem que deva protegê-la da inconsistência do próprio semblante, como se ser “mulher do Fulano” validasse Maria como mulher. Nesse caso, Maria corre o risco de tomar um pé na bunda e, junto do Fulano, se perder.

Um semblante não supre a nossa falta e não pode vestir o que Clarice Lispector, em ‘Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres’, chama de “nudez da alma”, que podemos dizer que é uma forma mais poética de pensar esse impossível de dizer sobre o feminino. Num trecho do livro, a protagonista, Lóri, ao mesmo tempo que aponta a falsidade de sua máscara, não sabe como ser sem ela.

“Pintou demais os olhos e demais a boca até que seu rosto branco de pó parecia uma máscara: ela estava pondo sobre si mesma alguém outro: esse alguém era fantasticamente desinibido, era vaidoso, tinha orgulho de si mesmo. Esse alguém era exatamente o que ela não era. […] Toda pronta, com uma máscara de pintura no rosto – ah “persona”, como não te usar e ser! […] Quanto tempo suportou de cabeça falsamente erguida? A máscara incomodava, ela sabia que era mais bonita sem pintura. Mas sem pintura seria a nudez da alma. E ela ainda não podia se arriscar nem se dar a esse luxo”

É claro que podemos nos sentir muito mais cômodas com nossos semblantes do que Lóri, e nos ater a alguns atributos imaginários para encontrar uma identidade para si, mas, mesmo quando fortemente agarradas ao semblante, ele nunca vai suprir por inteiro a nossa falta. E que assim seja, pois onde não há falta não há lugar para se desejar.

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