– Vamos lá pra casa?

Estava esperando esse convite fazia um tempo. Estávamos nos pegando há umas duas horas e eu já tinha dado a letra de que meus pais estavam ficando na minha casa, meus pais do interior, meus pais conservadores, meus pais.

– Mas eu quero te avisar de uma… Coisa. Um probleminha.

Ai, lá vem. É casado. Tem namorada. Tem alguma doença incurável. Mora com a avó. Mora numa pensão para rapazes. Tem só uma bola.

– É que eu… adotei um cachorrinho.

Oun, que fofo! Além de ser gato, cheiroso e ter pegada, ainda adotou um cachorrinho! Mas ué?

– Oun!

– Sim, ele é uma gracinha, mas… É que ele late.

– Bom, ele é um cachorro, folgo em saber que ele late.

– Ele late muito. Muito. Muito mesmo.

– Hum, que… chato?

– Ele acaba de se acostumar comigo, pra mim ele já não late mais, mas é que desde que adotei o Pantufa não levei ninguém em casa.

Oun! Pantufa!

– … E você está com medo da reação dele? Relaxa, eu gosto de cachorro. Gosto mais de gato, confesso, mas gosto de cachorro também.

– Que bom, que bom… Mas minha dúvida é se ele vai gostar de você. Quer dizer, não é bem isso, mas é que eu só tive cachorro quando era pequeno, sabe, e ele é novo lá em casa, eu não sei muito bem como ele pode reagir.

– Hm.

– Ele late muito. Muito mesmo. Sério.

– Bom, quer ir pra outro lugar?

– De repente era umas…

– Sério? Por causa do cachorro?

Confesso que já tinha dado uma esfriada no clima todo. Estávamos numa pegação pesada e esse negócio de ficar falando do Pantufa não era bem o que eu tinha em mente… Mas ele era gostoso, engraçado, inteligente e não me parecia ser do tipo que fica de papinho.

– É… Não, não. Não vou deixar de ir pra minha casa com você por causa do cachorro.

Aí sim.

Fomos. No carro começamos a nos pegar de novo e resolvemos manter a compostura depois que eu quase bati o carro meio que quase gozando. Melhor não fazer essas coisas em movimento, né? Melhor dar uma paradinha. Mas ele disse que paradinha ali melhor não, que era meio perigoso, que vamos logo pra casa que eu tô louco pra te chupar.

Uh, vamos.

Estacionei, entramos, subimos, as mãos dele por baixo do meu vestido, minha mão no pau dele por cima da calça, por dentro da calça, ele dizendo “mas e a câmera” “foda-se a câmera, o porteiro estava dormindo” e rimos e chegamos.

Chegamos no andar, no andar, e Pantufa começou a latir.

Pantufa começou a latir e nunca mais parou. Nunca mais. Nunca mais. Não é exagero: ele nunca mais parou. Entrei na sala. Sentei no sofá. Ele latia. Latia. Latia. Seu dono, constrangidíssimo, tentava falar alguma coisa, mas eu não conseguia prestar atenção, pois Pantufa latia, latia, latia. Ele (o dono) me pegou pela mão e me levou para o quarto, mas o Pantufa foi atrás, latindo, e se pôs a arranhar a porta fechada. Enquanto latia, é claro. Latia, latia, latia.

Até tentamos resgatar o clima do elevador, mas era impossível. Mal tirei o sutiã e já tinha desistido e já estava colocando de volta e dizendo que não ia dar, não. O apartamento era um quarto e sala bem bonitinho, porém apertadíssimo e sem qualquer lugar que pudesse manter Pantufa longe da porta por uma rapidinha.  Se eu soubesse o que me esperava tinha parado na rua mesmo. Sexo no carro teria sido melhor do que nenhum sexo por causa de cachorro. Ou teria ido pra minha casa com meus pais idosos, que nem iam acordar se eu fizesse escândalo.

E foi assim, queridas, que perdi a última foda do ano antes de ir viajar pra Fortaleza com meus pais.

Nunca mais nos vimos.

Mas às vezes eu sonho que o Pantufa está rindo da minha cara.

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Ilustra de DW Ribatski

***

* Esta é uma história de ficção. Precisa sempre frisar, né?  

É escritora? Tem uns continhos ou uns poemas guardados mas não sabe onde publicar? Manda pra nós com o título “Ficção” que uma vez por semana vamos publicar. Nem precisa lembrar que tem que ser mulher, né? :D

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