Achar que o debate se propõe a contrapor quem gosta ou não de futebol é muita desinformação. E, não se engane: ignorar os outros saldos da Copa é ruim para absolutamente todos os brasileiros.

nãovaitercopaNão lembro onde achei, mas essa imagem é inesquecível pra mim (e antecede a Copa)

Não sou da galerinha que acredita que “futebol é o ópio do povo”. Não curto simplificar o povo, pois não curto me simplificar. Nós, do povo, conseguimos, sim, gostar de  algo e seguir pensando criticamente sobre o mundo.

Inclusive, por não acreditar que somos simplórios, boto fé que podemos mais que pensar dessa maneira politicamente infantil e polarizada, por isso acho importante que lembremos que a Copa tem, sim, servido como desculpa para atrocidades no que diz respeito aos Direitos Humanos e liberdade de expressão.

E todos sabem o que ocorre quando começamos a achar normal tratar ativismo (e pobreza) como crime.

Por exemplo: a Wanessa Bárbara fez um levantamento para o NY Times sobre as manifestações da Copa ocorridas em SP desde o começo do ano e uso os dados dela:

– No quesito “coisas quebradas”, foram 10 vidraças de banco, 2 concessionárias, 1 ônibus, 1 viatura policial, 1 guarita da PM e 1 fachada de McDonald’s.

– No quesito “gente quebrada”, foram 508 pessoas detidas e 89 feridas (de acordo com o GAPP, Grupo de Apoio ao Protesto Popular), incluindo um rapaz atingido por munição letal.

(…)

Se, como disse o jogador Ronaldo, “tem que baixar o cacete nos vândalos”, já temos uma proporção de 8,9 feridos por vidraça quebrada. Entre esses feridos se encontram jornalistas, uma grávida e até um padre.

E tem mais. Um ano depois do começo das manifestações, apenas dois processos envolvendo PMs corriam no Tribunal de Justiça Militar de São Paulo (tudo indica que nenhum deles referente às tantas violações aos direitos humanos ocorridas em 2013).

Isso em SP, onde hoje temos pelo menos dois presos que são considerados políticos: o Fábio Hideki e o Rafael Marques. O Hideki, inclusive, avisou os amigos que andava sendo seguido, coisa que muitos ativistas posteriormente presos também disseram. Além disso, os registros em vídeo deixam mais do que dúvidas sobre o motivo pelo qual Hideki foi preso.

rafaelE esse é o Rafael Marques

A maior parte dos ativistas é enquadrado nessa lei de formação de quadrilha, coisa que sabemos ser totalmente absurda. Ativismo não é crime. Digo, não é crime em países democráticos. E permitir que isso ainda seja usado como argumento é seguir dizendo que todo pensamento dissonante é criminoso.

Além disso, os danos de ser ativista são físicos E sociais: o Rafael Marques, por exemplo, depois que foi preso pela primeira vez, nas circunstâncias da foto aí de cima, perdeu os dois empregos (esconder o rosto tem inúmeras motivações).

No RJ, o Comitê Popular da Copa e Olimpíadas do Rio de Janeiro revelou um longo dossiê que dá conta que, desde 2011, 16,700 pessoas foram removidas das favelas cariocas. Num total de 29 comunidades (mais 16 ainda correm risco). 75% dessas remoções tinha relação com projetos da Copa e das Olimpíadas e a grande maioria se concentrava em terrenos de especulação imobiliária extrema.

Pra quem não compreende o nível de violência dessas remoções, é importante saber que elas são consideradas a mais extrema violação de direitos de moradia, além de colaborarem com a limpeza étnica que vem por trás do conceito de pacificação.

O dossiê diz, ainda: “em todos os casos as remoções ocorreram sem que os moradores tivessem acesso à informações que justificassem a necessidade da remoção, ou sem qualquer debate sobre os projetos de urbanização – tantos com os residentes quando com a comunidade como um todo”

protestos_rafaelcoutinhoEssa ilustração é do Rafael Coutinho e peguei emprestada daqui

Além disso,  Rafael Vieira, preso com produtos de limpeza e acusado de posse de explosivos, continua na cadeia. Desde o ano passado. Eu lembro de ter assistido essa prisão por uma das mídias alternativas que cobrem manifestações e, mesmo sabendo de antemão da carga de horror imposta aos moradores de rua nas cidades sede da Copa, foi bem chocante ver uma prisão que claramente não fazia sentido. E é chocante saber que ele continua preso.

Nas outras cidades as violências e insatisfações não são menores. Lembro de um texto sobre a decepção de povos indígenas no Amazonas e, por ser natural de Porto Alegre, sei que ontem (durante um jogo) dois ativistas foram detidos e espancados, só sendo localizados por seus advogados 3h depois (essa prática é ilegal). Sei que, assim como nas demais cidades-sede, em BH também tem rolado a “caldeira de Hamburgo”, que é a prática ilegal de cercar os manifestantes, impossibilitando a saída e criando um caldeirão de horror.

Aliás, os Advogados Ativistas tem mantido uma catalogação constante das ilegalidades praticadas antes e durante a Copa. Aprendo muito com eles (ainda que, temo, não seja muito útil, pois agora é legal cometer ilegalidades, parece).

Então não vamos nos deixar enganar: não deveríamos estar perdendo nosso tempo nos colocando uns contra os outros, já que nada disso é sobre futebol.

Mas deveríamos, sim, falar e debater tudo isso que tem ocorrido.  Simular que nada está acontecendo não “deixa a festa mais bonita”, mas pode deixar a ressaca dessa festa beeeeem mais longa.

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