Ontem tava vendo o documentário sobre a Susan Sontag e, nele, ela conta que recebeu o seguinte conselho do padrasto: Sue, se tu continuar lendo tanto nunca vai casar. Então ela deu uma gargalhada, pois sequer cogitou casar com alguém que não gostasse de livros.

Que coisa absurda!

Uma coisa absurda que existe até hoje em filmes, textos, músicas, conselhos, etc que tentam dizer como as mulheres devem ser para agradar aos homens. Como se conseguir agradar um homem fosse um grande feito, do nível subir o Himalaia.

Então bora dar as mãos, aqui, e mandar esse fodasse (sic) do fundo do peito:

1. A namoradinha troféu (aka, cool girl)

cool girlDo filme “Como perder um homem em 10 dias”

A Gillian Flynn resumiu, no livro Gone Girl, um pensamento que nutri por muitos anos: a cool girl ou, como meus amigos adoram dizer, um dos caras. A cool girl, mais que só uma garota legal, é uma versão muito gostosa do melhor amigo dos caras. Mas o que difere ela de um ser humano é que ela nunca fica braba, ela deixa que seu homem faça absolutamente tudo o que quiser e apenas sorri. Taí uma tradução freestyle do trecho do livro:

Ser uma cool girl significa ser uma mulher gostosa, brilhante e divertida que adora futebol, poker, piadas sujas e arrotar, que joga video-games, bebe cerveja barata, ama sexo anal e sexo a três e enfia cachorros quentes e hambúrgueres na boca como se tivesse realizando o maior gang bang culinário do mundo, mas isso tudo sempre mantendo um manequim 36, porque cool girls são, acima de tudo, gostosas. Cool Girls nunca ficam brabas, elas só sorriem de maneira amável, e deixam seus homens fazerem o que eles quiserem. (…) E os homens realmente acreditam que essas garotas existem. Talvez eles sejam levados a acreditar nisso porque muitas mulheres estão dispostas a simular ser essa garota. (…) Pode ser uma versão levemente diferente – talvez ele seja vegetariano, então a cool girl vai amar seitan e ser incrível com cães; ou talvez ele seja um artista hipster, então a cool girl vai ser uma nerd tatuada que usa óculos e adora HQ. (…) As cool girls são ainda mais patéticas, elas sequer estão simulando ser a mulher que elas querem ser, elas tão simulando ser a mulher que os homens querem que elas sejam.

Logo de cara aviso que a treta não está no video game ou no futebol. O negócio da cool girl é que ela está mais próxima de uma real doll do que de um dos caras. Ela é uma mulher hetero que vive de migalhas afetivas sem nunca reclamar. E isso sofrendo a mesma pressão de todas as mulheres em se manter dentro dos padrões de beleza e ser feminina (mas não fresca!) e divertida.

Então HQs podem ser um prazer inacreditável pra quem gosta, mas os prazeres são coisas pessoais, não moedas de troca. Menos ainda com babacas.

2. A auto-antagonista (aka, Woke Up Like Dis)

woke up like dis“Acordei assim… perfeita”

 Se amar é uma coisa tão importante que talvez seja o único método realmente eficaz de ser feliz. E, sim, todas nós temos nossos dias de tumblr girl, mas uma mulher auto-antagonista é aquela que os homens adoram ir nas revistas dizer que precisamos ser. Porque eles acham que mulher muito maquiada é feio (então precisamos aprender truques para usar ainda mais maquiagem e parecer que não estamos usando nenhuma), porque bom mesmo é beleza real (rssss), porque mulher tem que ser modesta feito diz na Bíblia.

Além de estar sempre penteada, correr sem suar e ser um grande selfie com contra-luz, essa mulher também costuma vir associada a um outro padrão, que chamarei de Meiga e Abusada. E, apesar da letra da música da Anitta dizer exatamente o oposto, meiga e abusada é talvez a melhor maneira que eu já ouvi para definir esse padrão inocente (quase infantilizado) e, ao mesmo tempo, hipersexualizado que muitas vezes vem associado a isso. A típica meiga e abusada é uma releitura de uma série de coisas, todas horríveis para as mulheres.

Uma dessas coisas é aquele imaginário  de Lolita, consagrando o contexto quase pedófilo no qual alguns caras ainda nutrem seus desejos mais secretos (ou nem tanto). E, acredita em mim, o cara que gosta disso na verdade odeia mulheres e se recusa a reconhecer que elas, assim como todos os seres humanos, produzem secreções, soltam pum e tem angústias existenciais.

3. A submissa (aka, 50 tons de abuso)

50 shades of abuseOh o agressor demonstrando todo seu cuidado

Nós aqui do Lugar de Mulher aguardamos ansiosas pelo lançamento do filme de 50 tons de cinza. Como tu deve estar imaginando, isso não acontece exatamente pelos mesmos motivos que a maioria das pessoas aguarda. Nós queremos poder apontar, detalhadamente, o quão errado é fetichizar ainda mais o abuso e a agressão nos relacionamentos.

Pra já começar a entrar na vibe, eu estou seguindo o @50ShadesAbuse (50 tons é abuso). Lá, uma série de tweets e textos (em inglês) nos lembra e informa como é equivocado confundir violência com acordos sexuais mútuos.

A maravilhosa Jarid Arraes escreveu aqui (e aqui) sobre BDSM e eu garanto que nos textos dela em momento algum tu vai ler sobre um casal onde o homem coage a mulher a fazer sexo contra a vontade dela, ou sobre stalking, ou decidir que roupa a namorada pode usar, etc.

Nós já falamos aqui inúmeras vezes que: isso não é amor, é violência.

Desculpa, 50 tons, mas tamos passando.

4. A mãezona (aka, Para Casar)

esposa“Noel disse que as canções de amor são sobre sua bela esposa Sarah. Ele entrou em mais detalhes dizendo que ‘As letras são sobre o tipo de garota que vê além das suas merdas. Nós todos conhecemos elas. Elas são aquelas com as quais acabamos casando’. Bonitinho”

A típica mulher para casar tem dois atributos essenciais: aceitar muita merda e ser boa em cuidar. Elas são aquelas mulheres que os homens escolhem pois são boas mães em potencial. E podem ser boas mães para possíveis filhos ou só para eles mesmos. Não importa. Elas cuidam. Cuidam dos filhos, cuidam dos maridos, cuidam da casa, se dedicam mesmo.

Existem dois tipos de mãezona: as mulheres de quem os homens se separam depois de 20 anos (para ficar com uma namoradinha e viver uma adolescência tardia enquanto elas cuidam dos filhos) ou as mulheres que cuidam dos caras e aguentam caminhões de merda por anos, até que o homem fique velho, cansado e todo ferrado e acabe se contentando com elas (mas de um jeito romântico).

Não sei se esse é o caso do Noel e da Sarah. Só sei que mulher para casar, quando eu vi e vivi era exatamente isso: me cuide, me trate como uma criança e não me responsabilize se eu for mesmo uma e nunca pagar a pensão.

arroganciaEntão tu acha que quando uma mulher quer ser tratada com respeito isso é arrogância?

Se tu reparar bem, todos esses padrões tem algo em comum: eles nunca são bons pras mulheres. E o problema em ser uma mulher nesse contexto (especialmente as que se relacionam com homens), é que somos metralhadas por esse tipo de porcaria idiotizada sem parar e as vezes ficamos achando que elas são as únicas opções. Isso, por sua vez, faz com que acabemos nos adaptando a esse mundo, muitas vezes.

Por isso, ontem vendo o documentário sobre a Susan Sontag, fiquei pensando nesse foco que é tão difícil de manter no cotidiano dos relacionamentos e dos desejos, mas que é o que nos lembra que não temos obrigação de agradar. Essa não é nossa função no mundo.

E todas essas personagens que nunca quisemos ser e muitas vezes fomos são um convite para tentar nunca mais esquecer a perspectiva da Sontag de que, na verdade, somos nós que não deveríamos querer nos relacionar com pessoas que preferem simplificações grosseiras que situações reais, com pessoas reais.

Antes que alguém fale de intransigência com o outro, convém dizer que acho isso muito mais uma questão de não ser intransigente consigo mesma e acreditar profundamente que as coisas podem ser beeem mais divertidas assim. Inclusive: se tu olhar direito vai notar que desdenhar dessas personagens é uma defesa dos relacionamentos que não querem ser perfeitos e que, por isso mesmo, são os únicos possíveis <3

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