O termo histeria é muito usado pelo senso comum para falar que as mulheres são alteradas, emotivas, gritam, se descontrolam e sabe-se lá mais o que fazem esses seres. Mas, para a psicanálise, a histeria é uma neurose que se distingue e muito do feminino. Pelo contrário, do que se trata na neurose histérica é de uma recusa à feminilidade.

Não é de se estranhar que se confunda a histeria com a feminilidade, afinal, sempre foi uma neurose mais frequente entre mulheres – assim como a neurose obsessiva é mais vista em homens . Muito antigamente, aliás, a histeria era considerada uma doença orgânica de origem uterina. Ou seja, puramente feminina. Mas antes de ser doença era pecado, ligado ao prazer sexual. As histéricas, acusadas de terem sido possuídas por um incubus, eram jogadas na fogueira. Não podemos dizer que não houve melhora.

histeria

O que dá pra concluir, pelas acusações que percorreram a história indo da bruxaria até a loucura, deixando os hospitais psiquiátricos para seguir vendo seu juízo questionado tantas vezes até hoje, é que a histeria incomoda. E incomoda porque a histérica gosta de apontar a falta e o obsessivo detesta. Ela acredita no inconsciente e o obsessivo não. Ela não sabe o que quer e quer que o outro saiba. Mas também não quer que lhe deem tudo o que quer porque ela gosta de manter o desejo insatisfeito.

Eu, pessoalmente, tenho uma enorme simpatia pela histeria. Foi do encontro de Freud com as histéricas que nasceu a psicanálise. Ele deu ouvidos quando uma histérica pediu que se calasse e escutasse o que ela tinha a dizer. E com seus ouvidos diferenciados pôde escutar, também, que existiam homens histéricos. Não tanto quanto mulheres, mas, hoje, cada vez mais.

Dito isso, confesso que foi um trecho de “Toureando o Diabo”, da Clara, que me inspirou a escrever sobre o tema.

“Personagem mina humana, eu quero. Porque eu quero que as minas se identifiquem com ela. É pra elas que eu escrevo. Antes não era. Antes, quando eu era idiota e fazia de tudo para agradar os homens. Antes, quando não queria ser mulher e achava que era diferente das outras aos olhos deles. Quando eu achava que o mundo era dividido entre “nós” e “aquelas vagabundas” e que eu jamais seria percebida como “uma delas”. Quanta ingenuidade, quanta confiança, quanta falta de vivência. Eu só andava com eles, me gabava disso, achava o máximo o banquinho que eles reservaram para a cota feminina do rolê. Eu: uma mulher que não gostava de ser mulher e não representava perigo”

Isso é histeria. Ou melhor, também é histeria, porque não existe uma única forma de ser histérica. Mas uma coisa que nenhuma histérica curte é a posição feminina, já que desde uma posição histérica o feminino é considerado um lugar castrado, degradado, faltante. Um lugar de objeto que a histérica se recusa a ocupar. E é se posicionando como homem que ela busca diferenciar-se disso e negar sua falta. Ter o falo, tal qual seus companheiros machos, embora nenhum deles tenha, ou ser o falo.

Enquanto se confunde mulher e histeria, a histérica se posiciona como homem. Se identifica ao pai – ou à figura masculina que caiba – e, a partir desse lugar, se dirige a uma outra mulher em busca de uma resposta à grande pergunta histérica: O que é uma mulher?

Lacan afirma que tornar-se mulher não é a mesma coisa que se perguntar pelo ser mulher, e que “até certo ponto, perguntar é o contrário de chegar a sê-lo”, já que é partindo de uma identificação viril que a histérica formula essa pergunta. E ainda que a gente saiba que não há resposta para essa pergunta, nem sempre é fácil convencer a histérica que nos habita. O caminho pode ser, então, deixá-la nos habitar menos. Não que seja fácil, mas ser mulher nunca é.⁠⁠⁠⁠

 

Obs.: Quem for do Rio e tiver interesse no que Freud falou sobre a mulher mais além da histeria, estarei coordenando estudos sobre O Feminino em Freud a partir de Junho, em Botafogo.

Informações: annacarolinapn@gmail.com