Comecei a publicar na internet quando era bem nova, lá pelos 17. Escrevi meu primeiro livro aos 22 e, confesso, não sabia muito bem o que estava fazendo. Só fiz. Cheguei em São Paulo e comecei a escrever. Minha vida mudou completamente quando mudei pra cá, saí do conforto da casa de um namorado e de um emprego de redatora de publicidade pra me virar na cidade dura, cinza, fria – fria mesmo, era um julho gelado e eu vim sem nem querer saber. Morando no quartinho dos fundos da casa de um amigo, ganhando muito pouco, escrevendo aqui e ali, mas sobrevivendo.

E é mais ou menos assim mesmo que começa o meu livro; nunca neguei que uso a vida como matéria-prima. Algumas vezes me envergonhei disso, achei que fosse menor, mas aí via os caras que foram minhas referências, Fante acima de todos, e pensava: por que eles podiam e eu não? Na época em que escrevi o Máquina de Pinball isso nem me passava pela cabeça. Eu podia sim e eu fiz. Um livro quebrando vários tabus sem querer. Falando de sexo, de drogas, de vida e de fracasso.

Me dei conta disso esses dias, lendo o release que um amigo escreveu.

A dureza paulistana e a paixão pela literatura resultaram em Máquina de Pinball, lançado pela editora Conrad em 2002. O livro conta a história de Camila, um alter ego da autora, que persegue o amor sem pausa para descanso. Ou melhor, com pequenas pausas apenas para o sexo casual. Ah, e ela também escreve. E sofre. E bebe. E usa drogas. O mais incrível é que, ao juntar tudo isso em um livro, Clara ajudava a romper um tabu de décadas – sim, até o começo dos 00 todas essas atitudes ainda eram repreensíveis em uma garota.

Ainda são. Mas eram muito mais. Esse movimento de libertação não era popular, de feminismo mais se falava na academia e em movimentos sociais e eu não estava nem um pouco preocupada com essa questão. Eu só queria escrever. E foi o que eu fiz.

Muitos dos meus críticos batiam na seguinte tecla: mas O QUE este livro quer dizer? E eu não sabia explicar.

Será que literatura ou qualquer arte tem que querer dizer alguma coisa mesmo, afinal?

Outro dia eu entendi. Eu só queria escrever. E, escrevendo, disse: eu também posso. Mulher também pode escrever assim. E isso não é “escrever como um homem“. Durmam com essa.

E não dormiram, viu? Por isso que hoje em dia eu não estou nem aí pra trolls de internet. Já lidei com todo tipo de ataque e de ameaça por ter lançado um livro. Um livro, sabe? Lembro bem de um cara que leu uma matéria na Folha e me escreveu dizendo que se eu queria aparecer deveria enfiar um abacaxi no cu, me chamando de puta, de vagabunda… E ele sequer tinha lido! Me xingou por causa da foto da contracapa e por causa da matéria, risocas/choros. Um outro sujeito fez um blog só pra falar mal de mim. Lidava com esse tipo de coisa pra baixo. E não era pouco.

Por que? Porque eu sou mulher. Na época não me tocava que era por isso. Ninguém xinga homem que escreve umas cenas de sexo, álcool e drogas, né? Anti-herói é o cara. Anti-heroína é uma puta suja. Incomodei mesmo, e talvez esse fosse um dos meus objetivos.

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 “Vagabunda querendo chamar atenção pros peitos”

Implico bastante com esse livro. Tenho vontade de mudar tudo. Mas não vou mexer. Senão vou passar o resto da vida reescrevendo e nunca mais farei nada de novo. Hoje escrevo de outra forma, sou outra pessoa. Hoje tem um discurso pro trás do que produzo na literatura, mas tomo cuidado para que o discurso não engesse a criatividade.

Mas o lance é: descobri o que eu queria dizer.

Eu sou mulher.

Eu posso.

Eu fiz.

E vou continuar fazendo.

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