A macheza me cansa, nossa, como me cansa! Outro dia vi uma entrevista do Contardo Calligaris onde ele afirma que os homens só se apaixonam na hora de partir, no caso da matriz americana desta narrativa masculina, só se apaixonam na hora de partir para a guerra, quando separam-se heroicamente de suas donzelas e jogam-se nos braços da morte, iludidos assim que vão finalmente se safar de resolver seus problemas com suas adoradas Jocastas. Ontem numa mesa de bar com amigos e amigas tive de ouvir de um belo homem de seus quarenta e poucos anos, as estratégias que ele usa para “passar o rodo” e seduzir a mulherada. Ô cansaço, cansaço da macheza, dos aventureiros e sedutores! Lembrei-me do Don Juan, é claro. Escrito em três atos por Tirso de Molina, em 1630, “El burlador de Sevilla y el convidado de piedra” é a matriz da qual se originaram vários textos posteriores, todos variantes do texto primeiro e que traduz um dos arquétipos mais populares do comportamento masculino entre nós, o do Don Juan, o inescrupuloso conquistador. Vale também lembrar dos textos de Zorrilla, Molière, Gonzalo Torrente Ballester e Juan Claudio Lechín, entre outros. É, portanto, de longa data que os tipos sedutores, manhosos e enganadores são populares e fazem relativo sucesso. O catálogo apresentado por Don Juan na sua insaciável busca entre seduções e tropeços é, tanto na peça como na ópera, objeto cômico e que funciona como fetiche da mais afoita fantasia masculina:

“Minha jovem senhora, eis comigo o

Catálogo

Das belas que amou meu mestre;

Um catálogo que u mesmo fiz;

Olhe, leiam junto comigo.

Na Itália, seiscentas e quarenta;

Na Alemanha, duzentas e trinta;

Cem na França e na Turquia noventa

E uma;

Mas na Espanha, já são mil e três.

Entre elas há camponesas,

Camareiras e burguesas,

Há também condessas e princesas,

E mulheres de todo nível,

Aparência e idade (…)

Não importa que seja rica,

Que seja feia ou charmosa,

Uma vez que use saia,

Sabe-se bem o que ele fez com elas.”

Don Juan não sabe quem são as mulheres que seduz, o que importa é seduzir, é a conquista, é a contabilidade do catálogo e a forma despersonalizada de contar que importa.  Já no início do primeiro ato, Don Juan Tenório, ao fazer-se passar pelo Duque Otávio seduz a duquesa Isabela. Ao descobrir a farsa, a duquesa queixa-se ao rei de Nápoles que ordena o tio de Don Juan, Pedro Tenório, prender o culpado pela desonra à duquesa. Pedro Tenório acaba por acobertar a fuga de Don Juan que, desde esse momento até o final da história embrenha-se pelos caminhos mais inusitados de mentiras, confusões as mais perigosas e engraçadas em nome do seu objetivo na vida que é seduzir, enganar, burlar e fugir. E é assim que ele se apresenta no clássico diálogo com a duquesa Isabela, que  pensa estar se encontrando com D. Otávio, seu namorado:

“Isabela – Sai por além, D. Otávio, que é mais seguro.

  1. Juan – Volto a jurar-vos, duquesa, que cumprirei as minhas promessas.

Isabela- Serão então verdadeiras as vossas promessas e ofertas, vossas dádivas e cumprimentos, afeições e amizades?

  1. Juan: – Sim, meu bem.

Isabela: – Vou buscar uma luz.

Don Juan: – Para quê?

Isabela: – Para que a minha alma veja a felicidade que acabo de sentir.

Don Juan: – Eu apagarei a luz.

Isabela: – Oh! Céus! Quem és, homem?

Don Juan: – Quem sou? Um homem sem nome.

Isabela: – Não és o duque?

Don Juan: – Não.”

Don Juan é um homem sem nome, as mulheres seduzidas por Don Juan não precisam ter nome, o que equivale a dizer que não tem identidade, individualidade, que não são ninguém. Don Juan é um misógino, tem desprezo ou aversão às mulheres. Don Juan não as reconhece, não as identifica, na verdade as mulheres não existem, são meros objetos de sua guerra própria e particular onde seduzir é apenas afirmar-se. É figura voraz e fugaz que se apresenta sempre de forma superficial e mascarada, um homem sem nome, um homem que é ninguém. Para Betty Milan, em seu ensaio “O que é o amor”, D. Juan, em relação às suas conquistas, de inúmeras mulheres, (…) “Não se fixa em nenhuma e, sem se satisfazer se satisfaz através de qualquer uma, exercitando-se numa estranha contabilidade, a de que a cada vez contar menos uma, uma a menos para ter enfim seduzido todas. A misoginia de D. Juan é incontestável. Além de recusar a igualdade só tem olhos para todas porquê não vê nenhuma, ele desconhece a especificidade, cada uma das mulheres é por si idêntica a qualquer outra. Para ele o amor é uma esparrela se não uma forma de caçada. Interessa-lhe fazer-se amar, suscitar a paixão, amar nunca. O outro único que me fez tanto esperar – desesperar aqui inexiste e o nosso personagem só fala de amor para negá-lo. De longa data Don Juan é um arquétipo da virilidade, que entre nós se caracteriza pela recusa de sentimento (…) Don Juan é de pedra, é o único dos humanos que desafia o amor, não arde – na peça de Molière ele termina pegando fogo”  (p.1991)

Mas é no segundo ato que Don Juan será mais uma vez desmascarado, depois de tentar seduzir Dona Ana e enfrentar-se com o pai desta, Don Gonçalo de Ulloa, com a morte dele. O terceiro e último ato nos mostra a sedução de Aminta, assim como o convite do morto para que Don Juan vá jantar com ele no sepulcro no dia seguinte. Aceito o convite, Don Juan sente-se queimar durante a ceia e, sem absolvição, cai morto. Don Juan tem assim o seu castigo, elementar, que deveria ser conselho para os sedutores contumazes: todo Don Juan um dia encontra com o seu convidado de pedra. É o que reza o texto-matriz de Tirso de Molina e também o de Molière.

Fiquei olhando aquele belo rapaz, cheio da manha donjuanesca detalhando suas estratégias do beija-mão e da fidalguia e me perguntando por que as mulheres ainda se encantam tanto com esta figura ilusória e precária que parece permanecer soberana no imaginário feminino e que as projeta, sem escapatória para histórias amorosas sempre infelizes e perversas.

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chega disso, né

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