Vocês já pararam pra pensar o que faz tanta gente reproduzir discursos e comportamentos de ódio contra mulheres? Eu penso com frequência.

Por exemplo, o que faz uma questão do ENEM, sobre uma pensadora, ser tão revoltante a ponto de unir vereadores, um promotor e trollzinhos de internet em torno da mesma ignorância? Ou, ainda, o que leva um político a achar que é válido gastar seu tempo formulando leis que criam ainda mais desamparo?

Via de regra minha conclusão é que a consciência da própria humanidade, em mulheres, é vista como um ato de insubordinação – quer a gente queira, ou não. Não podemos sair do nosso cercadinho social pré-definido sem que as pessoas e algumas estruturas se sintam atacadas.

vadiaQuando eu sou assertiva, eu sou uma vadia. Quando um cara é assertivo, ele é O CARA, ele “mandou muito”

Isso porque a crença da própria humanidade, quer dizer, uma mulher se ver e se perceber como humana normalmente resulta em coisas imprevisíveis, não só que no que nos dizem que podemos fazer. Uma mulher que sabe que é uma humana, uma pessoa de mesmo valor que as outras, sabe que só ela pode decidir por si, pelo seu corpo, e sabe que tem o direito de ser respeitada, de ganhar o mesmo salário, de não sofrer violência e de viver dignamente e de amar plenamente. E que se isso não acontece, é o mundo que está errando, não ela.

o-mundo-que-tá-erradoElas sabem, nós sabemos: o mundo que está errando (daqui)

Então quando eu li, mais cedo, sobre a violência policial terrível que rolou na 1a Feira do Livro Feminista e Autônoma de Porto Alegre, não conseguia parar de lembrar da frase do Aaron Swartz:

Informação é poder. Mas como todas as formas de poder, tem aquelas pessoas que vão querer guardar ele só pra si.

Eu queria muito ter ido nessa Feira. Porque é uma Feira do Livro. Porque é Feminista. Porque é autônoma. Porque nunca na história do mundo foi fácil, para as mulheres, adquirir e produzir conhecimento. Porque o conhecimento liberta, ler uma mulher falando das suas vivências, ler e pensar o mundo sendo mulher, são coisas muito perigosas.

É como disse o Paulo Freire:

A pessoa conscientizada tem uma compreensão diferente da história e de seu papel nela. Recusa acomodar-se, mobiliza-se, organiza-se para mudar o mundo.

E uma mulher que, mesmo diante da violência, se mantém consciente da sua humanidade e do seu direito de lutar é uma mulher muito perigosa, porque ela deixou de acreditar que precisa ser dócil. Ela sabe que pode ser o que quiser e que pode defender o que acredita. Ela sabe que é humana.

Quando as mulheres (que nem deveriam estar ali, pra começo de conversa) decidem organizar uma Feira do Livro Autônoma, falar e difundir a possibilidade de falar, elas se tornam inimigas de uma estrutura que não as quer como humanas. E por isso, também, o promotor que citei lá no início falou o que falou da Beauvoir

Aprendam jovens: mulher não nasce mulher, nasce uma baranga francesa que não toma banho, não usa sutiã e não se depila. Só depois é pervertida pelo capitalismo opressor e se torna mulher que toma banho, usa sutiã e se depila.

Pra ele e para esses policiais de Porto Alegre uma mulher deveria saber que o seu lugar não é ficar pensando. Uma mulher deveria respeitar seu lugar de subordinação, sua vocação para embelezar o mundo, seu direito/dever ao silêncio. Mas para nós, que sabemos que somos humanas, essas coisas já deixaram de ser opções faz tempo. Nossa opção é, sempre e mais, mostrar que o mundo está errando e que não vamos aceitar caladas.

Por isso gostaria de aproveitar e chamar todas as mulheres maravilhosas de Porto Alegre que tem consciência da sua força e humanidade pra irem, hoje, no último dia da 1a Feira do Livro Feminista e Autônoma. E todas as mulheres maravilhosas do país inteiro a não se calarem, ajudando a divulgar essa violência e assinando o abaixo assinado pela punição desses policiais. Porque não vamos retroceder nem um milímetro, porque não vamos parar, porque só vamos adiante.

Aceitem.

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