O que alguns médicos,  lideranças políticas e lideranças religiosas tem em comum? Nenhum deles se importa com as jovens pobres que abortam.

No ano passado o país se comoveu com a morte brutal de duas jovens que buscaram clínicas ilegais de aborto. Agora estamos diante de médicos que, em detrimento de seu código profissional, denunciam jovens pacientes que escolheram interromper a gravidez.

Todos estes (e tantos outros) casos deveriam servir para nos abrir os olhos para o fato de que o verdadeiro dilema moral do aborto não está na interrupção da gravidez, está no abandono das mulheres pobres brasileiras.

ricasAs ricas abortam, as pobres morrem.

Por exemplo, essa semana uma notícia trouxe o dado alarmante de que 33 mulheres foram presas por abortarem no país, no ano passado. A matéria diz, ainda:

Os perfis das rés têm semelhanças: jovens, negras, com pouca escolaridade e baixa renda.

Ou seja, quando um médico ou médica opta por um recorte de classe e raça em suas denúncias, ele não está sendo um cidadão de bem. Isso não quer dizer que ele ou ela  segue um padrão moral inabalável, mas sim um padrão sádico e preconceituoso que, segundo crê, não terá punição.

E esse cidadão de bem que manifesta seu desagrado denunciando pacientes (em SP metade das denúncias foram feitas por esses profissionais), além de preconceituoso, também infringiu o Código Médico. Segundo o site do CREMESP:

O médico não pode revelar à autoridade, por exemplo, um aborto criminoso, posto que isso ensejará procedimento criminal contra a sua paciente.

Isso porque que o sigilo médico só deve ser flexibilizado em casos de epidemias, doenças contagiosas e crimes contra o outro (como homicídios). Um médico que denuncia (e não são poucos) uma mulher que abortou está indo contra o Código Médico e pode sofrer penalidades (entre elas suspensão e cassação do exercício profissional – art. 22).

O grande problema disso tudo parece estar no fato de que a punição (para esses casos específicos) tem mais chance de ser bem sucedida quando vem atrelada à uma denúncia da vítima. Agora imagine-se no lugar dessa mulher “jovem, negra, com pouca escolaridade e baixa renda” que sofreu traumas físicos e psicológicos na mão de um profissional que tem um status social de respeitabilidade e uma posição de autoridade.

Ou seja, essa vítima foi esquecida em todas as esferas até aqui, onde foi lembrada como alguém que deve conseguir (e saber como) enfrentar essa engrenagem complexa que praticamente existe para que pessoas como ela desapareçam.

Isso, além de cruel, é difícil.

Mas, do outro lado do espectro, está a apavorante normalização da violência contra a mulher, que já vivemos e que, conforme sabemos, sequer ocorre apenas nesse recorte. Absolutamente todas nós já ouvimos, lemos ou vivemos situações de violência ginecológica e obstétrica. Mesmo entre as mulheres que podem pagar caro por clínicas ilegais de aborto, não são poucos os relatos de má conduta. E, como sabemos, mesmo entre as mulheres que decidem ter filhos estes relatos são intermináveis.

Mas é entre essas mulheres jovens, de baixa renda, que optam por não ser mães, que o descaso e a violência ficam mais explícitos.

AbortoLegalAborto legal e seguro> As mulheres decidem, a sociedade respeita, o Estado garante, as igrejas não intervem.

E ficam mais explícitos por não serem uma questão que diz só respeito a esses médicos que se acham senhores do campinho. Essa é uma questão que também envolve um Estado negligente, que opta por não se envolver com questões das minorias, menos ainda das minorias de classes mais baixas. E, ainda,  lideranças religiosas que não vêem seus fiéis como são: 65% das mulheres que abortam, no Brasil, se declaram católicas (Carta ao Papa da ONG Católicas pelo Direito de Decidir) e 65% dos católicos do mundo é favorável ao aborto (entre outros desacordos).

É um abandono e uma violência sistemática que ocorre em muitas outras esferas que, assim como essas três, ignoram seus códigos éticos no que diz respeito essas mulheres.

E é por isso que, se desviamos um pouco o olhar, notamos que o verdadeiro dilema do aborto não está nas crenças individuais. Apoiar a urgência da legalização do direito de decidir tem menos relação com o que eu ou tu faríamos individualmente e mais relação com lidar com o que já ocorre (sempre ocorreu). E o que já ocorre são os estimados 1 milhão de abortos por ano no país. Destes, 250 levando à complicações. E, entre as mulheres que buscam ajuda por essas complicações, muitas são denunciadas pelos próprios médicos (a outra opção seria morrer?)!

O verdadeiro dilema, aqui, é ético e coletivo e não está na escolha das mulheres, mas no fato de esses procedimentos serem cercados de violência, abandono e invisibilidade.

(se tu ou alguma mulher que tu conhece foi irregularmente criminalizada por um mau profissional da saúde, aqui tem instruções de como fazer para denunciar esses médicos)

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