Se tem uma coisa sobre a qual nós falamos muito aqui são padrões de beleza, isso porque sabemos o quanto são nocivos e como é um processo constante, necessário e empoderador romper com eles. Deve ser exatamente por isso que existem tantos odiadores de corpos femininos felizes.

Esse tipo de discurso que expõe corpos para calar mulheres é uma faceta da cultura do estupro cada dia mais comum. Lembra quando rolou com a Jennifer Lawrence, por exemplo? Na época escrevi:

cultura do estupro não é, apenas, fazer sexo com uma mulher contra sua vontade. É subjugar essa mulher em diversos outros sentidos. E invadir a privacidade de uma mulher pública para lembrá-la que, não importa a distância que tenha percorrido, ela ainda é apenas uma mulher, sem direito ao seu corpo e à sua sexualidade, é cultura do estupro. E é cultura do estupro em uma ferocidade atroz.

E isso não acontece só com mulheres públicas. Quero dizer, entre minhas amigas e conhecidas, nas últimas semanas, pelo menos 5 foram expostas e difamadas por grupos (essencialmente de homens) que não conseguem lidar com a existência de mulheres que se amam. Especialmente quando elas estão fora dos padrões – parece que não tem coisa que misóginos odeiem mais que gordas felizes. É como disse a Polly:

O ódio que se sente não é da gorda feliz. É de perceber que talvez esteja buscando a felicidade no lugar errado.

Esse tipo de violência também tá longe de ser um negócio que só rola online, entre desconhecidos. Na real ela parece que nos cerca por todos os lugares, em todos os ambientes, como um polvo cheio de tentáculos. Por isso é importante olhar para ela pelo que é: uma tentativa de manter o cabresto, já que também se nutre do fato de que uma mulher que não vive de odiar seu corpo e tentar fazer ele se conformar aos padrões inatingíveis é uma mulher mais segura e, como tal, mais difícil de controlar. Como disse a Naomi Wolf:

Uma cultura obcecada por magreza feminina não é obcecada pela beleza da mulher, mas sim pela obediência feminina. A dieta é o sedativo político mais potente na história da mulher, uma população levemente louca é uma população dócil.

Afinal de contas, quando buscamos romper com a constante insatisfação e vergonha (que aprendemos ser a única maneira de lidar com o próprio corpo) imediatamente vemos quem somos. E notar nossa humanidade é saber que não viemos ao mundo pra agradar misógino babão. Sendo assim, temos menos motivos para nos desculpar e nos culpar por tudo. E se tem uma coisa que gente medíocre não tolera é mulher que não olha pra baixo e não se submete.

shrug¯\_(ツ)_/¯

Nos EUA uma mina maravilhosa inclusive criou a #ShirtlessShamers2016 como uma forma de expor o ridículo desses cagadores de regras sobre o corpo alheio. Admito que ri alto com as colagens de homens seminus falando mal de mulheres que postam fotos sensuais.

Vamos aos exemplos:

Um minuto de silêncio pelo Jacob e sua futura dificuldade em achar um cara legal (Jacob disse: Não postem fotos seminuas online, se vocês querem achar um cara legal. Caras legais querem se sentir privilegiados ao te ver nua, não ser só mais um)

Ah, os “caras legais”, que as Deusas nos livrem deles. Falei do tipo aqui e aqui.


Será que a gente devia? (o jovem disse:Vocês deveriam se respeitar mais e não postar fotos seminuas)

Na real a criadora da hashtag, a Lindsey, tem um projeto bem legal que se chama Cards Agains Harassment e que são cartões para distribuir para esse mesmo tipo de babaca do qual estamos falando:

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Tu é meu médico? Poisé, então guarde suas opiniões sobre mim e sobre meu corpo pra si (o famoso fica na suinha)

Eu sou sempre uma defensora dos processos de conscientização que envolvem humor, mas também sei que nem tudo se resolve só tirando com a cara de babaca, então se tu ou alguém que tu conhece está sofrendo esse tipo de violência virtual, as maravilhosas da Olga criaram um FAQ bem detalhado sobre como proceder. E, qualquer coisa, fala comigo que eu tenho umas boas advogadas pra te indicar.

Mas, acima de tudo, é importante notar que nada disso tem relação com como nos portamos ou somos. Esse tipo de gente insiste em tentar nos diminuir porque é incapaz de lidar com corpos felizes e mulheres seguras.  Pra eles, meu recado:

choroSegura o choro

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