Eu pensei em iniciar esse texto falando sobre a história do voto feminino, sobre superação, conquistas, como chegamos até aqui.

Mas depois pensei que não era sobre nada disso que eu realmente gostaria de escrever – até porque vejo tantas mulheres incríveis, escritoras e ativistas maravilhosas que escreveram ou ainda irão escrever textos muito melhores do que seria o meu sobre estas questões. Então, decidi por outro rumo: falarei da minha experiência em ser candidata à Deputada Estadual no Rio de Janeiro. Preciso falar sobre isso. Precisamos falar muito sobre isso: sobre eleições e representatividade.

Tenho visto muita gente dizendo que não votará ou que não vota mais, por não acreditar no sistema eleitoral, no sistema político que temos hoje, que é preciso mudanças radicais, estruturais. E eu não poderia concordar mais com a necessidade urgente de lutarmos por novos modos de gestão. E não me atrevo à pretensão de debater – sem melhor conhecimento de causa – com quem defende a abolição de todo o sistema.

No entanto, este é o modelo que temos no momento e a luta por modifica-lo não impede que sejam colocados nossos representantes, inclusive para alterá-lo por dentro, senão como se deseja, em alguns aspectos que podem ser muito importantes para uma modificação geral maior. Além disso, se nos retiramos da disputa pelos espaços de poder hoje instituídos, quem fica com eles? Justamente nossos algozes. Pessoas com poderio econômico, midiático e vamos lá saber o que mais.

sufragette

Nós, os que querem e lutam por mudanças, ficamos de fora da política institucionalizada, ficamos de fora de onde as leis são propostas, de onde o executivo pode e deve ser fiscalizado, de onde se pode destinar verbas para instituições que desempenham papeis sociais importantíssimos, através de emendas orçamentárias. Eles, nossos algozes, ficam com tudo. Nós ficamos insatisfeitos, reclamando e protestando por outros quatro anos para depois repetirmos tudo novamente.

E estou longe de acreditar que com isso nada modificamos, pois muito conseguimos alterar através do caráter educativo e mobilizador dos movimentos sociais – para citar somente um exemplo. Mas, de qualquer forma, o que nos impede de estarmos em mais de um espaço? Por que não estarmos em mais de uma frente de luta? Sim, eu entendo que votar para quem defende não participar do processo eleitoral é alimentar um sistema em que não se acredita, e mais, um sistema que se quer destruir.

No entanto, a situação de avanço de grupos conservadores nas instâncias governamentais exige uma resposta urgente, imediata, dentro dos espaços que eles estão ocupando cada vez mais e nos cerceando direitos de forma cada vez mais absurda.

É urgente frearmos o avanço destas forças e, para isso, precisamos de representatividade. E é pensando nisso que alguns aceitam o desafio da candidatura. Não é fácil: nos bastidores da militância, sempre apontamos algumas dezenas de pessoas que seriam ótimos representantes, mas quase em sua totalidade respondem não, por ser muita exposição, muito desgaste, muita frustração, muita gente sem escrúpulo com que se teria de conviver muito de perto. Por outro lado, ainda assim, encontramos algumas pessoas dispostas e este ano, mais do que em qualquer outra eleição.

Contudo, sinto falta de ver a militância LGBT e feminista apoiando as candidaturas.

VARIOUS, LONDON, BRITAIN

Temos recebido apoios isolados e, é verdade, bem importantes, preciso dizer, mas esperava muito mais apoio da coletividade. Tanta gente falando que precisamos de feministas e de LGBTs em espaços de política institucionalizada, em espaços de poder que tem sido predominantemente masculino, hétero, branco, cristão, cissexual, mas quando alguns de nós partem para a luta – bem desgastante e dificílima – de tentar um lugar nestes espaços, acabamos por nos ressentir da falta de apoio e isso para mim tem sido algo bem desgostoso.Eu que sempre grito e luto para nos apoiarmos, nos mantermos, nos sustentarmos, nos fortalecermos em conjunto, assisto com imenso desgosto parceiros de luta isolados em suas candidaturas ou com pouco ou nenhum apoio. Onde estão os blogs, sites, portais, articulistas, colunistas, todos divulgando em seus espaços estas candidaturas? Onde estão os coletivos fazendo reuniões, seminários, debates etc? Coletivos com que entrei em contato respondem que em sendo coletivos com muitas pessoas e pessoas muito diversas, decidiram não apoiar qualquer candidatura. Ora, justamente por serem muitas pessoas, muitas vozes, é que poderia ser muito interessante o apoio. Justamente por serem coletivo é que o apoio seria importantíssimo. Temos força para eleger os nossos, mas nos eximimos.

Enquanto isso, enquanto coletivos, com seus portais, suas newletters, e todo o alcance que tem na rede, se recusam a divulgar candidaturas, o lado de lá, reacionário, conservador, machista, misógino, racista, homotransfóbico, conta com TV, rádio e todo o restante do aparato permitido em campanha. E sem ser pouco, são milhões e milhões gastos em material, são milhões de cidadãos alcançados. Mas eximir-se é mais fácil, é mais confortável, menos problemático: se não for bom o mandato deste ou daquele representante, ou fizer algo com que não se concorde ou decepcione, o coletivo não apoiou.

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E se nenhum representante for eleito, simples: é ficar no ora-veja, reclamando e lamentando mais 4 anos que, vejam só, representantes de minorias não são eleitos. É ficar mais 4 anos falando que precisamos de mulheres nas câmaras, no Congresso, e que é preciso termos mais candidatos que representem minorias, a cada avanço conservador absurdo dos que ajudamos a eleger por omissão.

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