Desde que o governo do estado de São Paulo anunciou a reorganização da rede pública, que os ânimos estão inflamados, dentro e fora das escolas. De acordo com o governo, a ideia é transformar as unidades que tenham dois ciclos em um ciclo único, transferindo alunos e entregando os prédios para as prefeituras ou para o Centro Paula Souza. Segundo a secretaria de educação, isso melhoraria o ensino, já que as unidades escolares teriam dedicação a apenas um ciclo.

As transferências se dariam em até 1,5km da antiga escola. Assim, o governo do estado teria já para 2016 mais 754 escolas de ciclo único. Cerca de 43% da rede seria segmentada desta forma. Aqui tem mais dados a respeito, segundo a secretaria de educação de São Paulo.

E o que alunos, professores e pais/responsáveis dos alunos acharam de tudo isso:

 

Isso tem cheiro de…

É óbvio que não posso falar em nome dos 293 mil professores do estado, nem dos 3 milhões e cacetada de alunos. Mas só na minha região, quatro escolas serão fechadas e os amigos com quem conversei que têm filhos em idade escolar estão inconformados. E duas dessas escolas já são de ciclo único. Eles não gostaram da escola para onde os filhos serão transferidos e vão precisar de um deslocamento duas vezes maior.

Inconformados com a mudança, alunos de várias unidades escolas do estado começaram a protestar. Foram às ruas, junto dos professores, que também serão prejudicados com a reorganização. O maior sindicato de professores, a APEOESP, alega que o motivo não tem a ver com qualidade de ensino, e sim reduzir custos da rede. A superlotação de salas, um problema antigo e crônico da rede estadual vai piorar para o ano que vem, já que para não pagar professores, as escolas não podem abrir novas turmas e assim desafogar as salas que estão com alunos saindo pelo ladrão.

Assim, os alunos tomaram posse daquilo que sempre foi deles, a escola. As informações variam, mas existem cerca de 37 escolas ocupadas pelos alunos, que se encarregam da limpeza do local, da comida e onde não há consumo de drogas ou bebidas. Mesmo que sua unidade escolar não seja fechada, muitos alunos se solidarizaram com os outros e ocuparam os espaços escolares, junto dos professores.

Sei que tem muita gente que reclama. Claro, é sempre assim. Se professor faz greve pedindo melhores salários e condições de trabalho, tá errado. Se pede as contas, se exonera e/ou fica doente, tá errado. Se luta pela melhoria da educação junto dos alunos, também tá errado. Com os alunos, que é a ponta fraca do sistema, é ainda pior. Acusados de desinteressados, baderneiros, vagabundos e pouco inteligentes, quando eles se revoltam por algo que vai prejudicar milhões de alunos e seus professores, as pessoas reclamam.

Mas de onde está vindo essa consciência dos alunos? Como eles podem ter resolvido enfrentar a decisão do governo de tal forma? De onde eles tiraram isso? Bem, a literatura e o cinema ultimamente têm ajudado bastante. Não que essa seja uma resposta, mas é bom a gente conhecer o universo dos jovens antes de apontar o dedo contra eles. A primeira pista quem deu foi o blog Pac Mãe.

Alunos de Hogwarts defendendo a escola do Lorde das Trevas. Fonte: Pac Mãe

Os alunos de Hogwarts, na saga Harry Potter defenderam sua escola do Lorde das Trevas ao custo da morte dos colegas e professores. Professores e alunos se uniram contra a opressão e rechaçaram aqueles que ameaçavam sua liberdade. Essa é uma mensagem muito forte e absolutamente política.

O que dizer do desafio de Katniss Everdeen à Capital? Ela e Peeta Mellark sobreviveram aos Jogos Vorazes e no final eram obrigados a matar um ao outro. Eles optaram por morrer do que ceder e a Capital, para acalmar os ânimos depois da morte de Rue, do Distrito 11, resolveram forçar um romance para todos pensarem no casal e não numa rebelião. Mas no fim, os Distritos se ergueram contra a ditadura da Capital, não aceitaram mais abaixar a cabeça e deram um basta. Um basta que mobilizou uma nação inteira a marchar pelas ruas da capital para depôr seu presidente sanguinário. Isso é ou não é uma mensagem política?

 

Joelle Charbornneau escreveu uma trilogia, O Teste, toda ela baseada em política, em governo, em depor tiranos e combater o status quo. A trilogia Através do Universo, de Beth Revis, lida com racismo, tirania, o forte sobre o mais fraco. A trilogia Reiniciados, de Teri Terry, lida com uma ditadura que, para resolver o problema da delinquência juvenil, reinicia o cérebro dos jovens, apagando suas memórias antigas e instalando uma nova pessoa no lugar, mandando-a para longe de sua família. Em Divergente,  de Veronica Roth, Tris pode morrer se souberem que ela se encaixa em mais de uma facção. Você precisa ficar no local pré-estabelecido e só tem uma chance de mudar na seção de escolha. Depois disso, seu lugar é lá, pronto, acabou, fim. Não ouse tentar sair de seu lugar, é essa a mensagem.

Nossos jovens estão lendo sobre ditaduras, opressão, revogação de direitos civis e liberdade, rebeliões, política e luta por seus direitos o tempo todo em distopias juvenis e, o principal, em seu tempo livre. Não é na aula de História ou Geografia.

Política, em sua conotação original, remete à organização da Pólis grega, à decisão sobre como é administrada a Pólis, às reuniões que definiam o que as cidades-estado gregas deveriam fazer — de guerras a obras públicas. Os alunos que estão acampados dentro das escolas estão tentando, de alguma forma, influir na organização dos equipamentos públicos na cidade. Isso é política por excelência.

Leonardo Rossatto – Medium

Se esse movimento inteiro não fez o governo do estado e a secretaria de educação perceberem que eles vão ter que sentar e conversar com pais, alunos e professores para tentar sanar os verdadeiros problemas da educação estadual, as ocupações precisam resistir. Além disso, não se deve falar “invasão de escolas”. A escola é pública, pertence ao povo e os alunos estão empenhados em protegê-la da máquina estatal que prefere fechar as unidades, sob a alegação de melhoria de ensino do que atacar os verdadeiros problemas, entre eles baixos salários de professores e falta de um plano de carreira decente, superlotação de salas e sucateamento das unidades escolares, entre outros.

Toda essa movimentação fez o governo colocar a Polícia Militar na frente dessas escolas e a entrar na justiça com pedido de reintegração de posse. Ué, mas a escola é pública. É de todos nós. E esses alunos estão mostrando ao governo o que a escola realmente é.


 

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