Como tantas mulheres, engravidei cedo, aos 18, do meu primeiro namorado. Eu não trabalhava e não tinha terminado a escola, logo, recebi com alívio a “ajuda” das famílias, minha e do incauto pai do bebê.


Desde sempre pagamos caro pela tal ajuda. Se, do meu lado, vinha dinheiro mesmo (meu pai pagava nosso aluguel) e da mãe dele roupas e tudo o mais que nosso filho precisasse, o aluguel moral que nos era coletado, mês a mês, superava em muito a bolsa-amor recebida.

Tenho muitas e tristes histórias sobre humilhação (o famoso “jogar na cara”, o modus operandi do meu pai até hoje), sobre chantagem (“ah, mas eu te ajudo, por que você não pode ir ao mercado às 3h da manhã comigo?“) e sobre o ridículo público (“pra trabalhar é um gatinho, mas pra comer é um leão!”, dizia o padrasto do meu namorado, quando nos via à mesa).

aluguel emocional

Veio outro bebê, a separação, a faculdade tardia e o ingresso afinal no mercado de trabalho, primeiro em sub-empregos, depois na luta diária que é ser novo na profissão que se escolheu, e adivinha? Nada mudou, por enquanto e já há muito tempo, apenas o aluguel “moral” como diz meu marido, Ricardo, que aumenta sempre acima da inflação e não se mede pelo IGP-M.

Às vezes gosto de sentir pena de mim mesma e me imaginar a mater dolorosa, que a tudo se sujeita em prol do filho na faculdade pública em outra cidade, mas não. Sinto-me pequena, miúda, fracassada em ser adulta, e muito medrosa.

Penso em por fim definitivo nessa locação injusta de sorrisos e encontros forçados, só por “gratidão”, o quanto antes, mas porque me tornei consciente há muito pouco tempo de quem sou e de quem posso ainda ser.

O feminismo está me salvando do meu medo, da minha auto piedade e, talvez, de mim mesma.

sorriso

, , ,