Quem nunca errou nessa vida, não é mesmo?

Pois eu fui lá e errei em rede nacional.

Em 2010 (DOIS MIL E DEZ, cinco anos atrás) estava precisando muito, muito, mas muito de dinheiro. Era uma fase trevosíssima da minha vida e, quando a produção do Troca de Família veio me oferecendo 25.000,00, conversei com meu marido na época e resolvemos aceitar o convite, posto que estávamos, como já mencionei, duríssimos, e esses zeros todos nos pareceram muito sedutores.

A ideia era sussa: eu ia passar uma semana fora e alguém passaria uma semana na minha casa, com meu recém-marido e minha filha, que na época tinha seis anos. Eu confiava nele com ela, pensei ué, uma semana fora pra ganhar vintecinco conto, pagar nossas dívidas e acertar nossa vida, que mal pode fazer?

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“o que poderia dar errado?” rsss

Bom, colegas, logo se nota que eu era uma cabaçona nesse negócio de TV aberta. Nunca fui muito de assistir televisão e só conhecia a versão gringa do programa, que passava na TV a cabo. Mas não estávamos falando de TV a cabo, estávamos falando de um dos canais mais apelativos e sensacionalistas da televisão brasileira, a Rede Record de Televisão.

Fui parar em Arraial D’Ajuda, na casa de um marinheiro inglês que nos primeiros dias queria que eu fizesse os serviços domésticos que ele não fazia e, quando viu que não ia rolar, relaxou e ficamos amigos. Os filhos eram dois meninos queridos, o pequeno um fofinho e o mais velho também um amoreco com um enorme talento para desenhar. Eu estava de férias, fui à praia, encontrei amigos, enchi a cara vigorosamente e cantei muito mal na Bahia. Na época eu tinha uma banda, quis que a banda aparecesse, achei que talvez fosse positivo, por que não?

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Miga, levanta daí, ce tá ridícula

Passou a semana, voltei pra casa, logo me separei do marido em questão e a vida andou.

Não sei se posso dizer que andou pra frente, pois em 2011 fui trabalhar no Portal R7 como redatora de humor. Não estava escrevendo livro, não estava escrevendo porra nenhuma. Estava sim muito bem sentada na minha mesinha quando olho pra TV da redação e lá está meu anoréxico rosto cantando muito mal na Bahia (eu juro que não canto mal daquele jeito, rs). Diferente do que tinham me dito, resolveram passar o programa sem aviso prévio a nenhum dos envolvidos um ano depois da gravação. Possivelmente isso estava previsto no contrato, mas sei lá que fim levou o contrato, eu só tinha pensado no dinheiro. E ali eu percebi que tinha sido editada. Pra fazer um programa de uma hora e pouco foram gravadas muitas horas do dia e da noite durante uma semana e dava pra criar qualquer coisa a partir disso.

Eis que nascia uma vilã. A doidona que deixava a filha largada. A bêbada que urrava caída no palco em Arraial D’Ajuda enquanto o inglês dizia que “meu marido não devia estar me dando atenção”. Loca, loca, loca. Eu estava mesmo um bocado descompensada na época, mas não daquele jeito. Se vocês soubessem o pouco de realidade que tem os “reality shows” ficariam abismados.

Eu já sabia que tinha rolado algo entre meu ex e a moça que foi pra minha casa, posto que ele tinha me contado. Já não estávamos mais juntos, eu não estava me importando muito com aquilo, até porque não foi nenhum relacionamento monogâmico exemplar, mas quando soube que ia passar aquela merda na TV eu enlouqueci. E fiz um post no meu blog… Xingando a outra mina. Chamando de piranha. Falando mal do cabelo. Falando um monte de merda, morrendo de raiva, querendo me defender da pior forma possível.

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Eu não disse que já fui assim? Pois fui. Faz muito tempo e eu sou uma pessoa completamente diferente, um pouco graças à repercussão do programa; fui xingada de todas as coisas que vocês podem imaginar por não ser a mamãezinha do comercial de margarina, por beber, por existir fora do molde esperado de uma mulher. Xinguei a outra mina, ela também foi xingada de todas as coisas. Uma mãe de merda, uma mulher sem moral, uma bêbada, mulheres condenáveis, porque é claro que todas as pessoas apontando os dedos eram santos, virgens, imaculados, bastiões da moral e dos bons costumes e abstêmios pela vida. ¬¬

Horrível. Terrível. Vergonhoso. Catastrófico.

E essa foi a primeira vez que eu tive contato escancarado com o machismo da massa – e tive que encarar o meu próprio.

Como eu trabalhava lá dentro da Record, a coisa toda saiu de controle muito rapidamente. O colunista de fofoca televisiva publicou meu depoimento e quando vi estava sendo coagida a participar do Hoje em Dia, programa matinal da emissora, e do Domingo Espetacular. Pra falar da minha vida. Pra falar daquela merda. Consegui fugir do primeiro, mas do segundo não deu. “Não vou fazer” “Vai sim”, disse meu chefe na época. “Vai sim” de chefe que acaba de te contratar não é algo que a gente possa negar, né?

Estava feito o papelão.

Torci por anos que aquilo fosse esquecido logo.

Aí que hoje eles resolveram reprisar esse programa gravado há 5 malditos anos. Hoje, que eu sou outra pessoa. Hoje, que o meu ex está lá muito feliz com sua família. Hoje, que minha luta é tentar educar mulheres para que elas não se xinguem como eu fiz com a coleguinha no passado. Hoje, que minha filha é uma adolescente e não merece ser exposta assim. Maior arrependimento da minha vida foi ter topado esse programa e fazer ela passar por aquilo tudo. Hoje, cinco anos depois. Que lama, hein, Rede Record de Televisão? A coisa está tão ruim assim pra vocês ficarem reprisando reality show?

Melhorem. E nunca mais me chamem para nada.

(E se você está chegando aqui agora por causa da reprise, pensando mas que mãe horrível, mas que vagabunda, mas que bêbada, mas que maluca… Bem vindos ao Lugar de Mulher, aqui a gente não aponta o dedo pra coleguinha, não julga mães por edições de reality shows e também não faz bafão que só vai dar mais audiência pra programa velho.)

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