Estou no processo de um documentário para uma ONG muito bacana, a Plan International. Foram escolhidas, nas oficinas feitas em 5 regiões do Brasil, 9 meninas entre 14 e 18 anos, e apresentamos a história e trajetória de cada uma delas.

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Euzinha sendo enfática em uma das entrevistas

A maior parte nem conhece o pai, ou conhece muito pouco. Quem segura a onda dos lares e da criação das filhas são, adivinha, as mães, quase todas mulheres que abandonaram os estudos pra dar conta da vida e batalharam para que as filhas não tivessem o mesmo destino. Chorei em boa parte dos depoimentos. Todo mundo chorava, eu fazendo as perguntas, elas respondendo, o Davi dirigindo, todo mundo. Tem todo tipo de história, desde violência doméstica até gravidez na adolescência, pobreza, abandono, dureza de verdade. Mas todas elas têm planos, sonhos e estão indo atrás do que acreditam como podem, com uma força incrível.

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Oficina de turbante em uma das atividades, em Brasília

Ter contato com essas meninas, suas mães e suas realidades me fez mudar demais a perspectiva de todas as coisas. Me fez ampliar também minha perspectiva do feminismo. Eliminei da minha vida discussões infrutíferas e bate-bocas inglórios; parei de perder meu tempo com gente sem interesse de escutar ou rever posicionamentos.

Tem TANTA coisa pra pensar. Tem tanta menina pra ajudar. Não perco mais meu tempo.

Às vezes ficamos presos em nossas perspectivas de mundo e esquecemos de nos colocar no lugar dos outros. Não precisa nem ser os outros lá no Nordeste, pode ser os outros aqui na periferia de São Paulo mesmo, perto, do lado. É claro que todo problema é um problema e precisa de solução, mas botar o pezinho pra fora da bolha sempre faz muito bem.

Fez pra mim.

Não que eu não soubesse que em algumas regiões o acesso à educação é difícil, mas é devastador ouvir de uma menina que na comunidade onde nasceu as crianças e adolescentes precisam pegar uma RABETA e atravessar o rio pra estudar em outro estado porque não tem escola perto, e que muitas meninas, diante de toda essa dificuldade, desistem de estudar e acabam engravidando na adolescência de homens bem mais velhos. Já sabemos no que isso dá; acabou escola, acabou ter uma profissão e ser independente, acabou qualquer perspectiva, sonho, plano. Saber que isso acontece é uma coisa; ouvir o depoimento de alguém que já passou por isso toca bem mais fundo.

Perceber outras realidades é, sem dúvida, ter que encarar nosso privilégio. E perceber privilégio é necessário para que haja mudança. Tendo essa percepção, posso usar meu privilégio pra tentar, justamente, usá-lo pra dar voz a quem não tem.

Parar de perder tempo com picuinha foi a melhor coisa que eu poderia fazer. Aconselho a todas.

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