Autoestima é um tema constante por aqui, afinal de contas, ser mulher nesse mundo em que vivemos não é nenhuma moleza, e muito provavelmente você já teve um ou muitos dias em que se sentiu um lixinho humano.

O problema – que uma leitora apontou e cá estou para falar sobre -, é que nem todo mundo consegue sacudir a poeira e dar a volta por cima sozinha quando a autoestima está lá no chão. Para muita gente, passar 20 horas racionalizando o quanto é incrível, fabulosa e interessante faz o mesmo efeito que dizer para uma anoréxica que ela pode comer um hambúrguer porque já está magrinha. Não se trata de fatos.

Eu poderia dizer, inclusive, que existem dificuldades estruturais para isso. Já ouviram falar do supereu, mais conhecido pelas ruas como superego? Pois bem, em 1914, Freud escreveu “Introdução do Narcisismo”, onde ele nos apresentou nosso querido “Ideal do Eu”, um ideal pelo qual mediríamos, então, nosso próprio eu (ego), e que fará parte do que posteriormente Freud chama de supereu.

O supereu é o nosso censor interno, que adora nos criticar e se certificar que estamos andando na linha, só que ele faz isso de uma forma bem sorrateira e nada legal. O supereu, sádico que é, curte dar uma infernizada em nossas vidas de vez em quando e dizer que não estamos nem perto daquele Ideal. E como o próprio nome indica, o tal Ideal não é algo alcançável, logo, o supereu não cansa.

E de onde vem o supereu? Fazendo um básico resumo, porque vocês não vieram ler uma aula de psicanálise, o supereu tem sua origem simbólica na introjeção da autoridade dos pais após o fim do complexo de Édipo, e a origem pulsional está na força da pulsão de morte. Também não vou explicar o que é a pulsão de morte porque tem lugar e hora pra tudo, mas vocês já devem ter entendido que, com esse nome, coisa boa não é. É dali que vem a força com que esse censor aponta para a nossa cara e diz: “Você faz tudo errado, sua cretina”. E sim, todos nós temos nossa quantia de pulsão de morte.

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E aí você me diz: querida, meus pais eram uns fofos e não tinham autoridade nenhuma, como pode meu supereu me castigar tanto? Pois é, a pulsão de morte não liga para a realidade dos fatos. Ela se vale de qualquer traço dos pais para alcançar satisfação agredindo o seu Eu. E o supereu não fica só te chamando de feia ou burra, ele pode ser bem mais cruel que isso. O supereu está envolvido em nossos mais problemáticos processos repetitivos, em muita roubada que a pessoa quer sair mas vive voltando porque rola uma certa satisfação, ainda que cause sofrimento – há um gozo envolvido. E, segundo Lacan, a única coisa capaz de obrigar um sujeito a gozar é o supereu. E isso não é um elogio.

Tudo isso para dizer que, a baixa autoestima nem sempre é uma questão que se apaga com maquiagem. Às vezes o buraco é muito mais embaixo e a gente precisa de ajuda profissional sim, porque o problema com a autoestima é só uma consequência de uma causa muito mais complexa e singular de cada pessoa. E não vai ter dica ou manual que resolva, porque cada pessoa é única e não só não vive as mesmas coisas como não é obrigada a reagir da mesma forma – e nessas horas um bom divã vem a calhar. E se alguém acha que é menos forte, menos incrível, menos independente por procurar análise por problemas de autoestima, temo que seja o supereu falando.

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