É, esse pode ser um tema polêmico.

Não quero, nem de longe, fazer apologia à magreza. A vida inteira fui gorda, e, de uns anos pra cá, passei a ser combatedora ferrenha de toda e qualquer manifestação gordofóbica. Mas sim, eu decidi emagrecer. E esse texto é mais do que uma tentativa de justificação: é um recado pra todas que já pensaram em julgar aquelas mulheres que tomaram essa mesma decisão. E é também uma tentativa dialogar com quem passou ou ainda passa por esse dilema: render-­se ou não à tentativa de emagrecimento.

Escrevo porque acredito que outras mulheres devam passar pelos mesmos confrontos que eu. Por muito tempo tentei assumir meu peso, minhas formas redondas, meu quadril largo, minhas coxas grossas, minha bunda grande. Mas não é fácil. Não é fácil escutar de toda sua família que você precisa emagrecer se quiser arrumar um namorado. Não é fácil ir à uma loja de roupas e nunca encontrar algo que sirva simultaneamente em sua cintura e em seu quadril. Não é fácil ser preterida na dança, no esporte, na entrevista de emprego, no flerte e no namoro. Não é fácil não se identificar com a protagonista do filme ou da novela, nem se ver vivendo uma grande história de amor, afinal, isso só acontece com meninas bonitas (sabendo que, numa sociedade gordofóbica, meninas gordas raramente são consideradas bonitas. E, quando são, são “apesar de” serem gordas).

Não, nada disso é fácil. Aí tenho que escutar, de amigas e colegas que compartilham também da luta feminista e do discurso do empoderamento, que “você romantiza demais as relações”, “você tem que assumir seu corpo”, “você tem que se amar antes de esperar que alguém te ame”, “você não pode ceder à ditadura da magreza só porque tem medo de ficar solteira o resto da vida”. Não que eu ache que esses argumentos não façam sentido, pelo contrário: gostaria muito de ser eu mesma a usa-los. Mas, enquanto gorda, repito: não é fácil! E, se você não o é, deixe que a gente faça nossos próprios julgamentos, condenações e absolvições. Garanto que toda gorda, ainda mais se estiver envolvida com a luta feminista, já se deparou com essas questões em algum momento da vida. Acredite, você não está sendo vanguardista.

Agradeço de coração a todas que me disseram que sou linda, desse jeito que sou, gorda. Mas não me diga, quando eu falar que estou indo pra academia, “você não precisa disso”. Eu sei do que eu preciso. Já fiz duas mil e quinhentas e cinco análises sobre o assunto. E, se mesmo assim eu decidi que vou à academia, simplesmente não pense que faço isso irrefletidamente.

Àquelas que conseguiram se assumir enquanto gordas: vocês têm todo o meu respeito e minha admiração. Acredito que a luta de vocês ainda deva ser constante, e que o medo e a insegurança ainda devem retornar em momentos de descuidos, mas defendo muito a importância do discurso de vocês e da luta pelo reconhecimento da beleza gorda. Só lhes peço que também não julguem suas irmãs que abdicaram dessa luta. Só elas sabem seus porquês.

E àquelas que decidiram emagrecer: esforcem­-se para não acabarem reforçando o discurso gordofóbico. Se vocês conseguiram emagrecer, não são melhores do que as que ainda não conseguiram, nem do que as que simplesmente não o querem. Repito, cada uma sabe de suas lutas, marcas e limites. Não façam discurso pró­emagrecimento, não postem fotos do tipo “antes e depois”, não repitam a todo momento que querem muito emagrecer ou o quanto emagrecer lhes fez bem. Enfim, não queiram ser exemplo. Parece bobagem, mas esses discursos fincam em nossa subjetividade, e a cada dia nos reforça a ideia de que ser gorda é ruim e que a sociedade toda nos quer magras.

Enfim, hoje eu decidi emagrecer. Amanhã posso mudar de ideia. Não sou menos feminista por isso. Não sou menos empoderada. Só eu sei das minhas lutas, que, infelizmente, não se encerram no meu peso.

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