Uma das grandes polêmicas de 2015 dentro da comunidade de ficção científica e fantasia foi sobre o Prêmio Hugo. Cunhado em homenagem a Hugo Gernsback, inventor e editor, além de autor de ficção científica, a ele é atribuído o próprio termo ‘ficção científica’, além da popularização deste gênero literário através da revista Amazing Stories, a mais famosa revista de FC do mundo.

Mas por que o Prêmio Hugo deve te interessar, você se pergunta?

Como funciona e qual é a polêmica

Qualquer obra, de qualquer idioma, pode ser indicado ao Hugo Awards, ou Prêmio Hugo. Qualquer pessoa que se torne membro da WorldCon e que pague U$50 ganha o direito de votar e de indicar obras e autores. Como membro, você recebe uma cópia digital das obras para poder avaliar e dar seu voto. Como o sistema é aberto, é comum que autores façam campanha junto de seus fãs para que eles votem no Hugo. Este sistema aberto privilegia o gosto do público, ao contrário de ter uma banca fechada, com pessoas que escolhem os indicados. O prêmio é estampado em capas e utilizado como indicador de qualidade por várias editoras.

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Tudo seria bem bacana e funcionaria às mil maravilhas se algumas pessoas insatisfeitas não tivessem se utilizado dessa maleabilidade das indicações para se lançar numa campanha baseada no ódio e no preconceito. Autores homens, brancos, cisgêneros e heterossexuais de ficção científica lançaram dois painéis de indicados ao Hugo. A ala mais agressiva é a dos Rabid Puppies, liderava por Theodore Bale, conhecido como Vox Day e a ala menos agressiva é chamada de Sad Puppies, liderada pelos escritores Larry Correia e Brad R. Torgersen. Larry Correia tem também ligações com o Gamergate.

O ano de 2014 foi o que mais privilegiou mulheres, negros e comunidade LGBTQ no Prêmio Hugo. Foi quando Ancillary Justice, de Ann Leckie ganhou de melhor livro, onde ela aboliu os pronomes de gênero, por exemplo. Toda a comunidade de FC e Fantasia já vinha sinalizando nos últimos anos uma maior representatividade e diversidade, o que apenas beneficia o leitor. Infelizmente, boa parte dessa diversidade de obras e autores não chegam traduzidas por aqui.

Os Sad e Rabid Puppies ficaram incomodados com toda essa presença de pessoas diversas na premiação. Eles alegam que há uma conspiração de esquerda para colocar representantes de minorias nas indicações e que a velha ficção científica, aquela “de raiz”, com grandes aventuras espaciais, de narrativas épicas teria sido trocada por uma bancada política esquerdista. Por isso os Puppies escolheram autores que, segundo eles, trariam essa aventura perdida de volta.

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Em um primeiro momento alguém pode dizer que os Puppies têm alguma razão em reivindicar que os prêmios sejam dados para as melhores obras. Infelizmente não é isso o que eles querem. Vamos conhecer melhor Vox Day, o líder dos Rabid Puppies. Theodore Beale é escritor de FC, já foi indicado ao Hugo e nunca ganhou. Ele já fez textos alegando que os direitos das mulheres são prejudiciais à sociedade e que negros não têm capacidade de desenvolver uma sociedade avançada. Segundo ele, a FC foi dominada por algo chamado “Pink SF”, que é a FC escrita por mulheres. Segundo suas próprias palavras:

Pink SF é um câncer. É uma perversão parasitária. É aquela morte pequena que mata todo sub-gênero literário. (…) Pink SF são as meninas vindo brincar na caixa de areia dos meninos e cagando nelas como gatos.

O texto original está no blog dele, mas para não gerar link, usei o naofo.de.

O escritor de ficção científica John C. Wright foi amplamente apoiado pelos Puppies. Seu nome apareceu cinco vezes entre os indicados deste ano e ele perdeu em todas. Para Wright os homens devem abominar homossexuais em nível visceral e as mulheres precisam ser femininas e delicadas, aquelas que serão salvas pelo herói na narrativa.

A premiação em 23 de agosto de 2015

Foi com muita alegria que as pessoas que acompanham a treta do Hugo de perto assistiram à premiação na madrugada de sábado para domingo. Houve recorde de votações este ano, 65% mais participação do que no ano passado. Categorias onde havia Puppies em peso, como Melhor Novela, Melhor Noveleta, receberam No Award, que é quando os votantes não concordam com os indicados e preferem não conceder prêmio a ninguém. E o melhor livro foi para o chinês Cixin Liu, com o livro The Three-Body Problem.

Fábio Fernandes, escritor brasileiro de ficção científica e tradutor de vários clássicos como Fundação, Laranja Mecânica e Neuromancer leu as obras indicadas pelos Puppies, como parte do pacote que recebeu para poder votar e foi categórico: as obras são ruins. Não só ele, como John Scalzi também leu e disse não haver qualidade alguma no que os Puppies indicaram.

Vários escritores se colocaram imediatamente contra os Puppies, como George RR Martin, que disse que eles haviam partido a premiação ao meio com a manobra que fizeram. Outros chegaram a se pronunciar para que removessem seus nomes dentre os indicados, pois não compactuavam com os painéis e com as alegações.

A ganhadora do Hugo 2015, Laura J. Mixon, na categoria de Best Fan Writer, fez um dos melhores discursos na noite da premiação:

Há espaço para todos nós aqui. Mas não há meio-termo entre ‘nós pertencemos’ e ‘você não’. Acredito que devamos encontrar maneiras menos tóxicas para discutir nossos pontos de vista conflitantes. Estou com as pessoas dos grupos marginalizados que procuram, simplesmente, serem vistas como seres humanos. As vidas dos negros importam.

O que os Puppies não perceberam, assim como todo mundo que apoiou os painéis (incluindo aí alguns autores brasileiros), é que não existe uma conspiração de esquerda. O que existe nestes últimos anos e na geração de autores e leitores é uma mudança de mentalidade. O mundo avançou – apesar de precisar de mais avanços – nas questões sociais, garantindo igualdade de direitos e maior visibilidade para as minorias que antes eram relegadas à obscuridade. Se Prêmio Hugo teve entre seus indicados livros que representem essa literatura, não é por uma conspiração, foi pelo gosto do público.

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O ataque à ficção científica feita por eles não passa de preconceito disfarçado de preocupação com a qualidade. Não passa de misoginia, racismo, homo, lesbo e transfobia, coisa que estamos cansadas de ver.
Assim como o ataque às mulheres que trabalham com games, o ataque a qualquer mulher que critique esses espaços, as pessoas que lutam por diversidade e representatividade, que os Puppies chamam de Social Justice Warriors – são constantemente bombardeadas por comportamento agressivos e ameaças. Não é de hoje que o chilique destas pessoas vem acontecendo. Vários fóruns tem discussões do tipo “por que as mulheres estão destruindo a ficção científica?”, sendo que FC surgiu com Mary Shelley e sua incrível obra Frankenstein.

Fico com o discurso de Laura. Há espaço para todos nós aqui. Essas manobras são desonestas e podem ter rachado o prêmio daqui por diante, mas não será suficiente para nos calar.

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