Que a antiga arte do debate racional e respeitoso está morta e enterrada nós já sabemos. Mas e a arte de saber ofender? Vamos trabalhar nisso aí, colegas.

Essa semana saiu uma pesquisa britânica: metade das mulheres mortas no Reino Unidos foi assassinada por um parceiro ou ex parceiro. Similar ao Brasil, aqui 65% das mulheres assassinadas o foram por parceiros ou ex parceiros. Nos Canadá, 58% dos estudantes universitários disse que estupraria quando a expressão foi alterada para “forçar uma mulher a fazer sexo”. No Brasil, 1 estupro ocorre a cada 4 minutos.

Mas, claro, ainda assim algumas pessoas tem a necessidade de questionar a ideia de cultura de estupro e violência misógina. Não tenho nada contra isso. Acho que questionar absolutamente todas as coisas da vida é um processo mental muito saudável, meu problema é quando ele envolve uma flexibilização estatística. Ou seja, quando tu diz que não existe cultura misógina, a despeito de dados terríveis como esses aí de cima (e tantos outros mais que sabemos).

E isso porque a única maneira de lidar com uma questão é reconhecer que ela existe. Normalizar ou invisibilizar a violência nada mais é que reproduzir essa cultura sem questionar ela. E só fica pior quando, no lugar de questionar o status quo violento e assassino, tu questiona as vozes que se levantam contra ele. As vozes das afetadas, nesse caso. Ou seja, tu pode nem ter notado, mas está reproduzindo e militando em nome de uma cultura baseada em morte, violência, ódio e subjugar outras pessoas.

Claro que nós sabemos que existem machistas. Se eles não existissem esse site poderia se dedicar a só postar coisas lindas e deliciosas sobre realizações de mulheres incríveis. Mas enquanto esse mundo não vem, nós temos a obrigação de lidar com esses comentários. Calar diante deles, ainda que seja a vontade a maior parte do tempo, não faz as coisas desaparecerem, conforme já falei aqui.

Então, por esses dias, graças a publicidade da Skol, recebi dois comentários masculinos questionando a campanha das maravilhosas (que acabou culminando na retirada dos anúncios). Em ambos os casos eles dizem que existe uma inferência sobre o fato deste não (do “Deixe o não em casa”) ser dirgido ao público feminino, que isso não está explícito nos anúncios.

De fato. E digo mais. Acho até plausível que os responsáveis por essa campanha, sendo eles em sua grande maioria mundial homens, sequer tenham se dado conta de que estavam fazendo apologia ao estupro. Imagina, eles vivem tão fora dessa realidade mortal que nem se dão ao trabalho de cogitar a interferência da mesma em suas criações.

Só que isso não só não melhora a situação como é uma obra cujos defensores pretendem que seja consumida descolada do seu contexto histórico e cultural. E isso, meus queridos, é provavelmente impossível e, no mínimo dos mínimos, profundamente questionável. Na verdade se tu conhece minimamente teorias de recepção tu nem vai ao rádio te expor ao ridículo de um argumento assim. Mas a ignorância anda de braços dados com a defesa do mesmo de sempre. E isso não fortalece argumento nenhum, pelo contrário.

haters

Curiosamente, quando recebi os dois links com o mesmo discurso (tanto do da Veja quanto o da Rádio Gaúcha), estava lendo sobre machismo ambivalente, uma teoria da psicologia social que divide os comportamentos machistas em: hostis e benevolentes. Os hostis ofendem, os benevolentes parecem elogiosos, mas se mantém dentro de um padrão social restritivo e estereotípico. Veja você.

E fiquei aqui me perguntando se o comportamento de bate e assopra de ambos os comentaristas, o já nosso conhecido sr. David Coimbra e o n00b Leandro Narloch, era só fruto de uma flexibilização atordoante ou poderia se encaixar em um tipo de machismo benevolente.

Vamos citar o Leandro, estejam prontas:

O que me intriga é seguinte: por que, fora uma ou outra exceção, as militantes que defendem essas causas legítimas são tão histéricas, voláteis, estridentes, paranoicas, desatualizadas, chatas, intolerantes, enfim, totalmente doidas?

Lendo isso pensei na citação que vi nesse texto da psicológa (essa paranoica rsss) Melanie Tannenbaum:

[Machismo benevolente é] uma orientação subjetivamente positiva para proteger, idealizar e dirgir afeto para as mulheres que, assim como o machismo hostil, serve para justificar o status de subordinação das mulheres em relação aos homens.

E talvez esse comentário (ou elofensa) não seja o exemplo mais explícito de machismo benevolente, mas sua função é bastante similar: suavizar a ofensa tentando cativar o público que não quer se inserir nela ou que quer evitar atrito. Ou seja, “eu sei que entre vocês existem algumas mulheres boas (as que concordam comigo), mas as demais (as que não concordam comigo) são histéricas, voláteis, estridentes, paranoicas, desatualizadas, chatas, intolerantes, enfim, totalmente doidas”.

Mas vamos admitir, o pior é que nem precisaríamos ir tão fundo na análise para reconhecer esses comentários que vestindo-se de debate, na verdade são ofensas pessoais. O mais provável é que absolutamente todas vocês já tenham entrado em contato com eles em redes sociais, emails e mesas de bar. Normalmente isso acontece quando transpomos o local de fala onde deveríamos estar, ousando falar para além do cronograma mental daquele interlocutor. E, de maneira igualmente corriqueira, eles vem em forma de contraponto: as outras, que não são como tu, que são melhores (sororidade manda beijos).

E pior talvez seja notar o conteúdo recorrente deles. Semana passada, por exemplo, rolaram ofensas debates na nossa página no Facebook. A sequência lia: “graças a deus não preciso lidar com pessoas como vocês, pois sou casado” e logo partia para pérolas como “vadia histérica que não consegue segurar homem”.

Agora note minha expressão de surpresa ao reconhecer o mesmo texto em um senhor desocupado e um colunista contratado! *nenhuma*

facepalm

Vamos aos estereótipos:

Histeria (que deriva da palavra grega para útero) é um diagnóstico antiquíssimo (mesmo) que se relacionava, inicialmente, com uma loucura surgida pela conexão de um útero ruim com um cérebro feminino. Já volatilidade, ou inconstância, é uma construção associada com mulheres tem tanto tempo quanto nós temos de paciência. O poeta romano Catulo, descornado por ter sido abandonado por sua musa Lésbia disse que: “as promessas de mulheres se escrevem com areia no vento”. Ê, frívolas sem coração.

Estridente refere-se ao som agudo, ou seja, “aquelas mulheres estridentes“, refere-se ao tipo de voz das mulheres. Uma bela metáfora para o desconsolo do confronto com a existência de sujeito e voz femininos.

Paranóicas talvez seja a ofensa mais ampla e menos relacionada com gênero, pois podemos usar ela com toda minoria que ousa apontar a violência cotidiana que sofre. Na mesma vibe o desatualizadas certamente é uma referência ao fato de reclamarmos das mesmas coisas que as gerações passadas. Claro, pra que reclamar de estupro e objetificação, isso sequer existe, caras.

Chatas e intolerantes, obviamente, pois estamos aqui escrevendo um texto com ofensas centenárias aos homens. E, bom, doidas nós temos um texto inteiro falando sobre, de tão cliché que é.

gordon

Mais para o final do texto o Leandro ainda diz (após citações questionáveis) que:

São militantes tão estridentes na pregação, tão cheios de ódio e obcecados com a causa que viram motivo de piada.

Sobre isso também já escrevi aqui: apenas uma mulher compreende o quão cotidianamente necessário é esse processo. Quanto a isso virar motivo de piada ruim, apenas digo que: é o de menos. Quando virarmos motivo de piada boa começaremos a rever o discurso, aí sim. E o lamentável, mesmo, é virar motivo de ofensa pessoal travestido de debate, mas isso aponta para outro discurso que deve sofrer auto-analise *dica*. E ele segue:

Afastam as pessoas que deveriam conquistar. Sabotam o próprio movimento.

Nós não precisamos te conquistar, cara, nós só queremos conquistar respeito, o teu e o de todo mundo. E um bom lugar para começar com esse respeito é reciclando esse cardápio milenar de ofensas, já que elas persistirão.

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