Na última semana, surgiu aí pelas redes sociais o “Desafio sem make” acompanhado da hashtag #stopthebeautymadness (pare a loucura por beleza). O desafio parece ter alguns objetivos, por exemplo, criticar a indústria da beleza e naturalizar a beleza real das mulheres. Eu não duvido das boas intenções por trás do desafio. Por isso, quero deixar claro que não condeno ninguém que tenha participado do desafio e inclusive acho que ele é importante e empoderador para algumas mulheres. Vi várias postagens muito bonitas, de pessoas que realmente não tiravam fotos sem maquiagem pelos mais diversos motivos e que, com o desafio, conseguiram tomar coragem para fazê-lo. Então sim, o desafio valeu. Ele tem seus pontos positivos que devem ser destacados.

A crítica que quero fazer com este texto é a respeito da homogeneidade do discurso, da falha em atingir plenamente os objetivos e da falta de interseccionalidade da maior parte das campanhas pela auto aceitação. Usarei apenas como exemplo o desafio sem make.

Eu, que sou uma mulher gorda, reconheci neste desafio um discurso muito similar a outro que ouço com muita frequência: É muito comum que se exija da mulher gorda que ela “ame suas curvas”. Amar suas curvas e parar a loucura pela beleza são duas coisas importantíssimas, urgentes. Porém é necessário que possamos direcionar melhor os nossos discursos, do contrário estaremos sutilmente culpando as vítimas. Quando impomos o discurso da aceitação para a mulher (tanto na questão da maquiagem quanto do emagrecimento), estamos apontando o dedo para quem?

No caso do desafio da (falta de) maquiagem, pediram para as mulheres postarem suas fotos ao natural no intuito de “parar a loucura pela beleza”. Será que a loucura por beleza é algo que está apenas dentro da mulher e, portanto, é dela a prerrogativa de parar de usar a maquiagem? Eu não acredito nisto. Eu creio que se existe a imposição por uma beleza artificial, é fruto de uma sociedade hostil. E, acima de tudo, é esta sociedade que deveria ser cobrada.

Várias campanhas de empoderamento feminino cobram um posicionamento da mulher para que ela seja “a mudança que gostaria de ver no mundo”. Existe gordofobia? Ame suas curvas. Há imposição por maquiagem? Não use. Há imposição para se depilar? Não se depile. É válido, mas não pode ser a única forma de reagir. Eu gostaria de ver campanhas mais frontalmente combativas, que cobrem posturas de empresas, da mídia e da sociedade de forma mais ampla, não apenas da mulher. Ainda mais essa cobrança em forma de “desafio”, quando cada mulher tem o seu próprio tempo para encontrar o caminho para se aceitar e conseguir postar fotos suas com tranquilidade.

Outro questionamento que tenho é sobre os objetivos desta campanha. Vi algumas amigas feministas postarem suas fotos sem maquiagem tecendo críticas certeiras a essa indústria da beleza que promove e lucra com a insegurança da mulher. Entretanto, outras mulheres não feministas não tiveram a mesma abordagem. Em geral, o que vi foram muitas mulheres dizerem que “mulher bonita é bonita até sem maquiagem” e muitos homens comentando que “homem gosta de mulher sem maquiagem”. O desafio pode até gerar empoderamento, porém não questiona as bases do problema: O machismo. Inclusive até o promove em alguns momentos. Há pessoas usando o desafio para definir quem é “realmente bonita” ou até condenando o comportamento da mulher que usa a maquiagem, por considerá-la fútil.

Sobre a interseccionalidade, preciso fazer uma pequena digressão: no tumblr é possível encontrar muitas imagens de nus femininos empoderados, de fotos sensuais e até mesmo tiradas durante ou após o sexo. Fotos que exaltam a liberdade sexual feminina. Porém, em sua maioria, estas fotos são de pessoas jovens, brancas e magras. Comparativamente, há muito menos imagens deste tipo de pessoas gordas ou negras. Não é diferente no desafio sem maquiagem. A maior parte das imagens que vi é de pessoas jovens, brancas e magras. Entendo que é importante para essas mulheres este tipo de campanha, mas é evidente que o empoderamento proposto é restrito.

Há pessoas que tem um rosto considerado mais aceitável. O rosto de “traços delicados” (eufemismo para rosto de gente branca) e magro tem uma aparência mais tolerada. Já reparou que se faz maquiagem para simular estes traços, buscando efeitos de cor e sombra afinar o nariz e afundar as bochechas? Pois é. Dentro de certos grupos, algumas mulheres podem até ser elogiadas e bem vistas por não usar maquiagem, por serem “bonitas de verdade” e “não serem fúteis”, mas a mulher gorda, que simplesmente por existir já é chamada de “relaxada”, passa por uma cobrança maior para se enquadrar. Para outras mulheres, ficar sem maquiagem não é desafio, é a única opção. As mulheres negras, por exemplo, tem uma dificuldade enorme de encontrar produtos para a pele negra, como base e corretivos. Então, enquanto algumas de nós resistem a usar maquiagem, outras querem ter o poder de decidir se usarão ou não, pois neste momento nem se trata de uma escolha. A libertação atingida pela campanha é desigual.

Todas estas contradições nos mostram que a loucura pela beleza tem muitas faces e, por isso deve haver muitas formas de serem combatidas. Talvez nenhuma delas seja 100% eficaz. Então, estou sugerindo que se deixe de apoiar campanhas desse tipo? Não. É importante falar em aceitação do corpo, estimular a autoestima das mulheres e parar a loucura pela beleza, mas é preciso tomar cuidado para não acabar isentando a sociedade de culpa. Estou sugerindo que promover a aceitação pessoal é parte de uma luta, mas não constitui o todo.

Devemos tentar iniciar mais campanhas que sejam diretamente apontadas para quem oprime a mulher. Para recordar um exemplo: Você se lembra quando a Loja Marisa fez aquela propaganda estimulando que as mulheres parassem de comer para ter um corpo de verão? Foi duramente criticada. E se houvesse uma campanha por menos photoshop nas revistas? Se cobrássemos mais proteção para as mulheres que perdem vagas de emprego em nome da discriminação por aparência física? Acho possível voltarmos os olhos para o que acontece à nossa volta e não observar apenas o que se passa dentro de nós.

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