Sempre tenho um certo medo de comparar coisas que absolutamente não tem relação nenhuma, eu sei dos riscos, mas tava aqui pensando numas coisas.

Como é impressionante o quanto a gente gosta da casa da gente, não é?

Mesmo que não seja a melhor casa possível, mesmo que estejamos fazendo aquela economia pra embarcar numas reformas, mesmo que tenha que subir escadas mal projetadas, mesmo que, se agente fosse escolher, teria construído tudo diferente, ainda assim “não há lugar como o lar”, nunca há.

E isso porque a nossa casa, ainda que não seja totalmente nossa, é onde identificamos nosso espaço de autonomia plena. É onde podemos andar de sunga no inverno, tomar banho ouvindo aquele funk que dizemos que não gostamos, ficar de pijama enquanto escreve o artigo mais importante da sua vida, fazer, enfim, qualquer coisa que nos dê prazer e não interfira de forma exagerada no prazer dos meus vizinhos.

É por entender a casa como esse espaço máximo de autonomia que 1) a opinião dos outros sobre nossa casa não importa tanto, 2) nossa opinião sobre a casa dos outros a gente acaba guardando pra gente, por educação, e 3) a gente aceita de forma absolutamente pacífica e natural a diversidade de casas que existem por aí.

Não vamos pedir a opinião do vizinho para escolher a cor dos tapetes, não nos importa minimamente.

Não vamos dizer pro amigo que aquela decoração com fotos de leões marinhos que ele tirou do google imagens é terrível, porque ali é um espaço dele, é muito claro que, se ele não nos perguntou nada, nossa opinião não interessa. Não faz diferença se a casa da minha Barbie era cor-de-rosa, a Barbie gostava de cor-de-rosa, eu não gosto e isso não é um problema de fato. A gente até pode ler umas revistas, visitar umas casas que nos inspirem, pegar umas ideias de decoração, mas ainda que não coloquemos nada disso em prática, seguiremos amando nossas casas.

Aí me impressiona como é natural essa nossa visão da nossa propriedade como um espaço de autonomia (o que nos faz amar esse espaço, independente de qualquer coisa) e, ao mesmo tempo, é tão complexa de ser construída a mesma ideia com relação aos nossos próprios corpos e aos corpos alheios. Onde foi que nos perdemos assim? Justamente nossos corpos, nossa maior propriedade, que é só nosso, algo que indiscutivelmente não pode ser retirado de nós em vida. Nada mais autêntico, mais nossa cara, que nós mesmos. (Talvez, mais nosso que isso, seja a alma pra quem é de alma, e ainda nesse caso a alma moraria no corpo. Tratamos a casa da alma pior do que tratamos a casa dos outros, isso não faz o menor sentido.)

Quando a gente saí por aí falando em auto-aceitação, se amar mais e não sucumbir aos padrões de beleza inalcançáveis, ninguém tá defendendo que nossos corpos devem inevitavelmente ser pra sempre como são. Que devemos nunca querer mudar nada e pronto. Ninguém se torna uma escrava do sistema, ou vai ter a carteirinha de feminista cassada, por querer emagrecer, engordar, pintar o cabelo de loiro ou usar cílios postiços.

A gente pode (e deve, se nos dá prazer) mudar o que quiser no nosso corpo, estar em reforma constante, adicionar novas cores, imprimir desenhos, dá pra fazer tudo isso, planejar tudo isso, conhecer outros corpos para se inspirar e tirar ideias, mas, ainda que não coloquemos nada disso em prática, continuar nos sentindo completamente confortáveis com nossas próprias construções. O que a gente precisa, e isso é urgente, é descobrir quais são nossas fontes de prazer com relação a nós mesmos, se a gente reforma o instrumento maior do nosso exercício de autonomia só pra agradar as visitas, talvez a gente não esteja desfrutando da melhor forma todo o prazer que essa autonomia pode nos proporcionar. Não é possível que amor próprio e respeito ao próximo sejam pra sempre exercícios tão trabalhosos.

Se a gente aprender, e descobrir como faz para ensinar as crianças desde pequenas, que não existe nada mais nosso do que nós mesmos, talvez a gente aprenda a 1) não nos importar tanto com a opinião dos outros sobre nós, 2) entender que nossa opinião sobre os outros, quando não solicitada, não importa para ninguém e 3) aceitar com a necessária naturalidade a diversidade de corpos lindos que desfilam por aí.

A ideia é só que a gente consiga entender que não há espaço de autonomia maior que nossos próprios corpos. Ele é nossa fonte máxima de prazer e nosso único instrumento possível para viver essa única vida que temos. Ainda que a gente queira mudar, ainda que estejamos planejando reformas, ainda que, se pudéssemos escolher, faríamos tudo diferente, não há corpo como nosso corpo, nunca haverá, e isso deveria ser o suficiente para nos amarmos, para sempre, em qualquer lugar.