Estava eu num clima meio comédia, depois de assistir ao último episódio de Santa Clarita Diet, que achei meio meh, diga-se de passagem, apesar de amar a Drew.Resolvi então dar uma chance àquela série que o Netflix tanto me sugeria, mas para a qual eu não dava a menor bola: Crazy Ex-Girlfriend. Quase desisti quando percebi se tratar de uma comédia entrecortada por números musicais, mas insisti. De repente, as piadas começaram a fazer todo sentido e fui me encantando com Rebecca Bunch (escrita e interpretada pela quase homônima Rachel Bloom), a tal maluca que havia largado uma bem sucedida carreira de advogada em Nova York para morar em West Covina, Califórnia, uma cidade com 105.080 habitantes que fica a quatro horas da praia (quase uma São João Del Rei), a fim de stalkear um rapaz que havia namorado durante um verão e que não via há mais de 15 anos. Afinal, quem nunca? E fui achando graça nas piadas. E fui achando graça nos números musicais. A cada vez que assistia à abertura, uma animação musicada, ria mais.

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Rebecca Bunch normaliza o crazy em cada um de nós. E não pára por aí. Ela normaliza o corpo não magro, o corpo imperfeito. A grande maioria dos atores na série não é especialmente bonita ou magra. E isso não é assunto! Diferente de Ugly Betty ou Drop Dead Diva, a imperfeição dos corpos e das belezas passa longe de ser o tema central das histórias. São pessoas normais, com aparências normais e conflitos emocionais normais. E eu ia me identificando cada vez mais com elas. Para coroar, de vez em quando, Rebecca dispara umas rápidas e engraçadas tiradas feministas. Me apaixonei e me joguei no binge watching.

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Só na segunda metade da primeira temporada o incômodo surgiu. Da mesma maneira que Rebecca normaliza imperfeições corporais e emocionais, ela normaliza comportamentos antiéticos. Rebecca mente o tempo todo. Para os outros, para si própria. Práticas masculinas que nós, feministas, abominamos, Rebecca impinge aos homens à sua volta. Trata-os como burros. E eles se comportam como burros, principalmente o ex-namorado Josh. O que significa que Rachel Bloom também os trata como burros, pois foi ela que os escreveu. Com frequência, Rebecca pratica gaslighting em Josh para se safar de suas próprias trapalhadas. E aquilo começou a me aborrecer. Até que, em um dos números musicais, Rebecca passa pela mesma revelação que eu e questiona se ela não seria a vilã de sua própria série. Foi um questionamento rápido e terminou com a música. Rebecca segue sendo a mocinha. Não mais para mim. No fim da primeira temporada, todos os personagens haviam se transformado em tremendos babacas. Assisti à segunda temporada extremamente irritada com Rebecca, que além de mentirosa e asshole, passou a fazer voz de bebê em quase todas as suas falas. Que pena que a normalização das imperfeições se transformou na normalização do assholism. Será que aguento uma terceira temporada?

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