Eu não sabia o que era Gaslighting. Também não sabia que eu estava em um relacionamento abusivo. Foi preciso muita terapia e auto-conhecimento pra entender o que eu tinha passado.

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Com 20 e pouquíssimos anos e em um primeiro relacionamento sério, de dividir a cama e as contas, eu não tinha a noção do quanto eu estava sendo sufocada. Eu só voltei a respirar anos após o término. O fim chegou com um surto e um princípio de Síndrome de Pânico.

De acordo com a wikipédia, Gaslighting é “uma forma de abuso psicológico no qual informações são distorcidas, seletivamente omitidas para favorecer o abusador ou simplesmente inventadas com a intenção de fazer a vítima duvidar de sua própria memória, percepção e sanidade.” Duvidar da sanidade, tão bem ilustrado ao longo de todo o namoro com a frase “tu é louca”.

Em quase 3 anos eu me afastei dos meus amigos. “Se tu sair com eles não precisa voltar pra casa”, “se quer tanto ver teus amigos eles que venham aqui”. Eu não tinha o entendimento de que dessa forma eu estava sendo controlada, claro que eu sentia que algo ali tava errado, mas eu cedia. Acreditava que eu tinha o poder de mudar a situação, de contornar.

Trabalhando com uma ONG Feminista, fui tirada pelo braço de uma mesa de bar em meio a uma conversa com mulheres de todo o país. Escondi a humilhação frente a tantos olhares incrédulos e indignados, eu apaziguei, eu aceitei. Ele chorou e pediu perdão. EU tinha que entender que era ciúmes. “Meus amigos disseram que era ridículo eu deixar minha mulher ir num bar sozinha”. Eu chorei por uma noite inteira, ele me chamava de boba, exagerada. Eu perdoei.

Ele saía com os amigos, “preciso de um tempo pra mim”, eu esperava em casa, sozinha. Eu conversava, sem entrar em detalhes, com algumas amigas, eu tinha vergonha de contar o que eu sentia. “Ele faz isso porque gosta de ti”, “vocês moram juntos, isso é normal, tu tem que entender ele”. Eu o questionava e enfrentava. Ele revertia a situação, eu era a louca e tudo sempre acabava comigo aos prantos, “desculpa, eu acho que sou louca mesmo”, “eu sei, psssiu, não chora, fica aqui, eu vou cuidar de ti”.

Ele me traiu. Ele negou enquanto eu lia as conversas com a outra, em voz alta. “Tu tá tão louca que inventou tudo isso, tu tem que te tratar, tu tem que tomar remédio”. Nesse tempo eu já havia murchado, eu tinha esquecido como era sorrir, eu me sentia profundamente triste, insegura. Eu tinha um medo tão grande, mas não sabia do quê. “Tu tá chorando de novo? O quê que tu tem?”, eu não sei, eu me sinto triste, “tu tem que te tratar, eu já te falei, se tu seguir assim chorando não dá mais”.

Eu passei a engolir o choro. Eu comecei a ter medo de sair na rua. Eu não conseguia sair sem ele. Lembro de uma vez que íamos jantar, não chegamos até a esquina, eu desmoronei. Tinha a sensação de que ia morrer, que algo horrível aconteceria, eu implorei pra voltar, eu paralisei. Eu não conseguia mais andar. Eu era agora uma criança, ele, o adulto que me levava pela mão.

Eu ficava doente. Em dois meses foram umas cinco idas ao hospital. “Dói, eu não consigo respirar”, mas pelos exames está tudo ok, eu chorava “Mas eu sinto dor, meu peito dói”. E eu voltava pra casa. Eu comecei a ter alergia, eu não dormia, eu não queria fazer mais nada. Ele me dizia que eu não conseguiria viver sem ele, eu acreditava.

Ele acabou comigo, “eu não aguento mais ficar com alguém que só chora do meu lado, tu não era assim”. Eu desmoronei mais uma vez. Fui para uma psicóloga e eu não conseguia falar, eu só chorava. EU precisava melhorar pra ELE me aceitar de novo. EU tinha errado, EU precisava parar de ser louca. Mais um psicólogo e mais terapia e mais tanta leitura sobre feminismo e empoderamento pra eu conseguir entender.

Ainda hoje é difícil, todo abuso gera traumas. Eu me tornei mais forte quando não tinha força alguma, eu precisei me reerguer pra me sentir feliz comigo mesma, pra me sentir mulher. Escrevendo esse texto e escutando as minhas palavras, fica mais clara a importância de se falar cada vez mais sobre esse assunto. Eu precisei me ouvir e eu sei o quão difícil é aceitar que se esteve numa situação dessas. Hoje eu estou começando a conseguir falar sobre isso. Foi preciso me redescobrir, me encontrar, me aceitar, resgatar a minha liberdade e, principalmente, me empoderar.

Minas, não se calem, não se machuquem, não se culpem. Estamos juntas.

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