Para a minha fala no TEDxSão Paulo sobre a campanha Chega de Fiu Fiu, precisei juntar coragem. Contei, no Auditório do MASP, sobre minha história com violência sexual não apenas para o público de 450 pessoas, mas também para câmeras que eternizariam o momento – aos 11 anos, escutei comentários grotescos sobre meu corpo de um estranho na rua.

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Falar sobre o #PrimeiroAssedio é sempre dolorido. Relembrar que minha infância foi injustamente atravessada por interações de cunho sexual dá raiva. Mas o pior é carga de culpabilização que a lembrança acompanha. “O que será que eu fiz para provocar isso?”, me questionava. Vivo a vida como mulher, é a explicação.

Naquele mesmo palco, desabafei sobre isso: apesar da minha primeira experiência com o assédio ter acontecido na infância, só consegui voltar a falar sobre ele 16 anos depois. Aos 27 anos, ao ver, pela primeira vez em toda minha vida, uma amiga reclamar de assédio sexual em locais públicos de forma pública, em post no Facebook, tive forças para transformar aquela experiência em palavras. Decidi ali que não voltaria para um lugar de silêncio e medo.

Mas qual não foi minha surpresa quando alguns seres questionaram a veracidade do meu #primeiroassedio? Como se a sexualização de meninas não fosse algo absolutamente normatizado na sociedade! E, infelizmente, o caso do MasterChef Jr. jogou luz em um problema absolutamente frequente, mas ignorado ou tratado como questão de menor importância.

HASHTAG TRANSFORMAÇÃO

Uma menina de 12 anos se inscreve no programa de televisão, pois ama cozinhar. Na internet, homens se sentem atraídos por sua aparência e, ignorando sua idade, resolvem tecer comentários de cunho sexual sobre a criança. o fato gera revolta nas redes sociais, mas não é preciso ir longe para encontrar histórias parecidas: basta pedir para que as mulheres olhem para o próprio passado.

Quando elas são convidadas a contar a história da primeira vez que sofreram assédio, descobrimos que esse comportamento é muito mais comum do que se imagina – e só é preciso imaginar pois esse terror vive escondido sob um manto de culpa e segredo tecido pelo machismo para acobertar os homens e culpar as vítimas.

Não se pode lutar contra o que não acreditamos ou negamos ter acontecido. Uma engrenagem funciona para reverter a lógica e manter as vítimas no silêncio.  Ela não é operada por um super vilão, mas se manifesta cada vez que somos convencidas de que reclamar é um exagero,  que é preciso esquecer,  que “o que passou,  passou”,  e que reclamar disso é  “vitimismo”.  Quando somos vítimas desde os cinco anos de idade de um comportamento invasivo e desumano,  então existe algo muito poderoso em se descobrir vítima.

É a partir daí que a mulher começa a se despir das mordaças: entende que o que aconteceu é errado, que o suporte que não recebeu ou teve medo de buscar na época são também frutos do machismo, bem como qualquer noção de que tivesse provocado ou permitido que o fato acontecesse. Descobrem-se,  enfim, vítimas de assédio sexual, ainda na infância.  E, finalmente, podem enxergar com clareza que existe um culpado, e que não é ela.

Tudo isso pode acontecer no momento em que ela descobre que não está sozinha. Por isso, criamos a hashtag  #primeiroassedio no Twitter. Ali, eu, Juliana, dividi sobre meu primeiro assédio, aos 11 anos, e outros casos que ocorreram ainda na infância, pré-adolescência e adolescência. Convidamos nossas leitoras a fazer o mesmo. Não é uma missão simples, indolor, fácil. Mas se apoderar da própria história é importante, de forma que a vítima assim se reconhece como vítima. Não é vitimismo. É o empoderamento de enxergar que a opressão é, de fato, uma opressão e não “parte da vida”. Este é o primeiro e mais importante passo para a mudança.

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Demos ali a largada em um movimento catártico e gigantesco de mulheres que, até em 140 caracteres, ajudaram a mostrar que o que aconteceu com a cozinheirinha de 12 anos é a simples realidade das meninas brasileiras. E o quão absurdo é que uma criança tenha que passar por isso.

Os depoimentos recebidos até então pela campanha Chega de Fiu Fiu contra o assédio sexual em locais públicos já mostravam que o problema começava cedo, mas não há precedentes na quantidade de histórias recebidas sobre a prevalência desse problema na infância.  Recebemos depoimentos de mulheres que lembram ter passado por abusos com até cinco anos de idade.

Ao ler isso, a reação inicial de muitos é acreditar que ela foi vítima de um pedófilo, o que isola e minimiza a questão da cultura de pedofilia em que vivemos – retratada com louvor por seus próprios representantes na ocasião dos ataques à menina do programa de televisão.  Existe uma desinformação muito conveniente para os homens em relação à gravidade das “brincadeiras” com pedofilia,  estupro e assédio que os deixa confortáveis o suficiente para reproduzi-las sem se preocupar com as consequências.

ANÁLISE

Até a meia-noite de domingo, a hashtag foi replicada mais de 82 mil vezes, entre tweets e retweets.

Analisamos um grupo de 3.111 histórias compartilhadas no Twitter e chegamos a constatação de que a idade média do primeiro assédio é de 9,7 anos.

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A seguir, veja a cloud de palavras mais citadas nesse grupo de tweets:

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Nossa jornada contra a violência contra a mulher, via Chega de Fiu Fiu, nos mostrou que, enquanto mulheres, NÃO temos o controle da nossa vida sexual. Somos iniciadas por meio de um ritual bárbaro e sádico e entramos nessa área tão delicada da vida de forma totalmente despreparada, cheias de dores, traumas e ansiedades.

Mas também descobrimos que anos de silêncio têm a capacidade de tornar as vozes ensurdecedores quando redescobertas.  Nunca duvide do poder das redes sociais para provocar reflexão e empoderamento. A Internet é feita de pessoas e é a partir delas que as mudanças acontecem.  Nesse caso,  para o bem e para mostrar um problema que está longe de acabar,  mas que felizmente a hashtag ajudou a mostrar que existe,  sim,  e muito, e que é preciso não ignorar as vítimas,  mas responsabilizar quem colabora com a manutenção de sua existência – nem que seja com uma “brincadeira” no Twitter.

Temos a honra de publicar essa colaboração da Juliana de Faria, fundadora da Think Olga e da campanha Chega de Fiu Fiu, e Luíse Bello, gerente de conteúdo e comunidades da Think Olga. O texto também pode ser lido aqui. Divulguem, façamos barulho <3

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