O projeto Outras Meninas é um espaço de construção mútua, onde mulheres falam sobre sua relação com o próprio corpo e a Manu Cunhas ilustra esse depoimento baseada na imagem enviada com ele.

 

01

 

“Levei 30 anos para aprender a me amar. TRINTA ANOS. É muito tempo perdido, até parar de lutar com a balança e fazer as pazes com meu corpo. O que me libertou foi o nascimento da minha filha. Parir aquela bebezinha e ver o exato momento que o corpo dela passou a funcionar por conta própria, me transformou. Ela ter aberto os olhos, se movido, puxado o ar e colocado o pulmãozinho para funcionar me mostrou como nosso corpo é perfeito e como eu quero ser um exemplo para ela. Não quero que ela cresça com uma mãe neurótica para se encaixar em padrões, uma mãe que não se aceita. Não é esse o legado que quero passar para ela. Quero que ela se ame, como ela for. E se algo a desagradar que ela mude por ela e não pelos outros. Perfeito. Mesmo com minhas estrias. Mesmo com minhas pelancas. Mesmo com minhas celulites. Esse é meu corpo e ele funciona como deveria: eu posso sentir, posso ouvir, cheirar, provar, caminhar. E mesmo se não pudesse fazer alguma dessas coisas, seria perfeito ainda assim. Pois haveria equilíbrio entre os outros sentidos, para aquele que não exercesse sua função. Não vou mais maltratá-lo com dietas malucas. Estou nutrindo-o de amor e felicidade.”

 

Todas participam como autoras anônimas, mandando um texto – uma palavra ou muitas – que fale de sua relação com seu próprio corpo e uma foto nua como referência para a ilustração.

 

02

 

“O problema é que eu gosto do meu corpo, mesmo velho. Aí você se pergunta, como isso pode ser um problema? Bom, as pessoas esperam que você seja mais “humilde” na terceira idade, com um tamanho de short decente ou uma roupa de banho grande o suficiente para tampar as marcas dos anos em você. Esses tempos fui com minha filha na praia e ela ficou horrorizada por eu ir de biquíni, já que ela mesma estava de maiô, para esconder o corpo meio flácido da gravidez. Agora devo ter vergonha de ser o que sou? Já tive 10 corpos diferentes para cada fase da vida e agradeço a todos eles por ter chegado até aqui e ainda conseguir caminhar mais rápido que meu neto na praia.”

 

A Manu está em busca de mais colaborações e quer retratar uma diversidade maior com o projeto. É um pedido difícil, seja por se fotografar e se ver nua (ou quase), pela auto-reflexão que pode ir bastante longe, ou por ter que confiar todo esse conteúdo para uma estranha. Mas os nomes e as fotos das participantes não serão divulgados e tudo será apagado assim que ilustrado.

 

03

“A pele que habito há 26 anos conta histórias por si mesma. As estrias e celulites que me enlouqueceram na adolescência, a manchinha de depilação no buço, os arranhões feitos por meus gatos e que são renovados a cada semana, os lembretes diários escritos nas mãos à caneta BIC. E tem as cicatrizes. A primeira, na mão direta, um risquinho fino que ficou de uma mordida de gato quando eu tinha 4 anos. Depois, uma depressãozinha no canto da sobrancelha direita deixada pelo piercing dos 16 anos. Aos 21, uma notícia que mudou minha pele (e minha vida) para sempre: eu tinha um câncer na costela. O intruso foi morto com 27 ciclos de quimioterapia e uma cirurgia que levou consigo meu quarto arco. Saldo final: uma tela de titânio, mais cicatrizes e uma vida nova. Nas costas, uma charmosa boca de tubarão. Ou o sorriso do Cheshire Cat da Alice. Ou mesmo uma rampa onde talvez eu tatue minha fusca (sim, é um carro fêmea) pegando no tranco. Um pouco abaixo dela, uma outra, deixada pelo dreno. Do lado direito do colo, uma pequena reta cor salmão ainda indica o lugar onde ficou o cateter. Depois disso, passei a amar e respeitar mais essa pele, fazendo questão de decorá-la com uma tatuagem. E espero que mais delas venham: tattoos, cicatrizes, rugas. Que a vida me marque até o fim.”

 

Para acompanhar o projeto e ver o resto das ilutrações é só seguir a página no Facebook, Tumblr ou pelo Instagram.

E quem se identificar com o projeto, e se sentir confortável para colaborar, pode enviar sua foto e seu texto para o email outrasmeninas@gmail.com

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