Ninguém se odeia “porque quer”.

Ninguém odeia o próprio corpo “porque quer”.

Ninguém entra em dieta maluca pra perder vinte quilos comendo abacaxi “porque quer”.

As pessoas buscam aceitação. Todas as pessoas. Existem muitas formas de buscar essa aceitação. Boa parte delas passa por se enquadrar em algum padrão.

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“Mas de onde você tira essas ideias de dieta?”

Eu não sabia que tinha distúrbios alimentares durante a minha adolescência. Pra mim era óbvio: precisava ser magra a qualquer custo. Ser magra era a única forma de ser aceita. Ser magra e bela era a única forma de ser amada. Se ser magra e bela era a única forma de ser aceita e amada, ora, então não medir esforços para alcançar esse “objetivo” era nada mais do que natural. Tomar mil remédios era necessário. Inibex, que delícia, ainda dava barato. Nada mais do que natural ir parando de comer, mas nada muito drástico para que meus pais não notassem. Comeu demais? Comeu porcaria? Mete o dedo na goela que essa bunda não pode crescer mais. Ela tem que diminuir. As coxas têm que diminuir, os peitos, eles precisam diminuir.

Diminuiu. A bunda, a cintura, as coxas. Os peitos foram na faca.

Eu diminuí.

Que linda! O que você fez?

Que linda! Que magra!

Que linda!

E lá estava a aceitação que eu tanto buscava. Custou nacos e nacos da minha sanidade mental que eu jamais vou recuperar.

Iguais a mim existem centenas de milhares. Iguais a mim existem meninas de 11, 12, 13, 14, 15 anos que acreditam que a única forma de ser aceita é estando dentro de um padrão cada vez mais surreal de beleza, cada vez mais inatingível, manipulado, photoshopado, impossível.

Hoje, aos 36 anos, eu ainda não estou curada dessa merda. Eu sei que sou um ser humano que não precisa se enquadrar em um padrão pra ser amada. Eu sei que sou mais que um corpo. Eu sei. Eu sei.

Às vezes me olho no espelho e esqueço tudo que sei.

Não odiar o próprio corpo é uma luta diária.

Vivemos em um mundo tóxico para as mulheres.

Todas sofrem.

As adolescentes sofrem mais. Daqui:

A anorexia e bulimia nervosa crescem a cada ano, principalmente entre mulheres, particularmente meninas adolescentes, com incidência maior aos 16 anos. Pesquisas norte-americanas revelam que esses transtornos têm nas mulheres 90% de seu alvo. Estão se tornando muito comuns em homens e mulheres em outras idades. Porém, aparece em apenas 5 a 10% nos homens. Muitas vezes esses distúrbios ocorrem em membros de famílias com nível socioeconômico alto e médio e onde há conflitos constantes entre os familiares.

Procurei estudos mais recentes, não consegui achar. Mas basta navegar pela internet, basta passear pelo instagram e pelo tumblr pra ver o óbvio: meninas cada vez mais novas estão sendo vítimas de distúrbios alimentares. Não precisa ter problema entre os familiares, não; eu vivia em um lar bastante equilibrado e cá estou, lutando contra isso até hoje e provavelmente pra sempre.

Basta passear pelas páginas de “musas fitness” pra ver um grande número de adolescentes acreditando em todo o tipo de “dica” esdrúxula pra “entrar na linha”, tudo com muitas aspas. Nada contra seguir um estilo de vida saudável; não é disso que estamos falando. Estamos falando da propagação de um padrão a qualquer custo que não tem como fazer bem A NINGUÉM.

Aí a musa-mor dessas paradas vai lá e posta o seguinte vídeo.

Eu vi isso e labaredas saíram de meus olhos.

Quanta irresponsabilidade.

Quanta falta de noção.

MANDA NUDES PRA AMIGA VAZAR SE SAIR DA DIETA?

Fia, Pugliesi, você por um acaso sabe o que acontece com as adolescentes que tem os nudes vazados? Você sabe que a vida delas acaba? Que elas precisam mudar de escola, às vezes de casa? E as que não podem mudar de casa, você sabe o que acontece? Teve até menina que foi estuprada porque vazou nude e né, já que era uma vagabunda mesmo… Você tem noção, mina, da irresponsabilidade da sua ideia “mara”? É possivelmente a pior ideia que já vi na minha vida. Irresponsável. Absurda. Porque né, de que vale a sua dignidade se você for uma gorda nojenta que não consegue focar na dieta? Não pode.

Num mundo doente, uma “musa” com discurso doente, que não deixa de ser uma vítima desse padrão, mas ganha zilhões de reais pra dar conselhos perigosíssimos sem conhecimento algum para meninas que a seguem como quem segue um culto.

Não porque “querem”.

Porque é assim o mundo em que a gente vive. Porque é esse o ideal de beleza, de normalidade, de felicidade. Porque dificilmente uma menina jovem vai ter discernimento, como eu não tinha, pra saber que a única beneficiada é ela, a Pugliesi, que ganha dinheiro pra espalhar insanidade sem escrúpulos.

E fica o questionamento: por que uma pessoa que espalha um discurso doentio e irresponsável sobre emagrecer ganha tanto dinheiro e sites body positive, que falam sobre aceitação do corpo, além de não ganhar nada, ainda têm que ouvir que não é que gordo seja feio, “só não é saudável“?

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