A companhia teatral “Os fofos encenam” apresentaria, no dia 12 de maio, no Itaú Cultural, a peça chamada “A mulher do trem”. Disse apresentaria porque uma personagem dessa peça, que não por acaso é a empregada doméstica, é caracterizada com Black face.

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Só o fato da personagem ser a empregada já demonstra a intenção e a não neutralidade: mulheres negras comumente são relegadas a esses lugares. Mas o problema maior é que é um homem pintado de preto que faz esse personagem. Basta abrir uma janela do navegador para pesquisar o quão ofensivo isso é.

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O black face surgiu por volta de 1830, durante a era dos shows dos menestréis, quando homens brancos se pintavam de preto de forma bem caricata e se apresentavam para grupos formados por aristocratas brancos com o intuito de ridicularizar pessoas negras.

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Essa, posteriormente, ganhou espaço nos cinemas e televisão. A prática serve tanto como estereótipo racista como forma de exclusão, porque se no primeiro caso ridiculariza, no segundo nega papéis a artistas negros.

Fora isso, como as pessoas não conseguem percebem que pessoas negras são diversas? Querer criar um “tipo ideal” de negro nega nossa diversidade e humanidade.

A peça ser cancelada foi uma vitória. Devemos mesmo nos indignar com práticas racistas.

Porém a resposta de algumas pessoas da companhia só evidencia o quão preconceituosos eles são. Um ator defendendo a companhia chamou os militantes de “anta, sem estudos e que eles deveriam ter estudado em alguma Unianta da vida”. Essa frase é problemática por diversas questões. Primeiro, como ele pode afirmar que essas pessoas negras não estudaram? Segundo, percebam o elitismo dele ao desconsiderar universidades particulares, muitas vezes aquelas às quais a população negra consegue ter acesso (e isso por conta do racismo estrutural, 354 anos de escravidão, dá um Google aí menino) e terceiro, percebam a arrogância desse ser ao julgar que não pode ser criticado.

Essa pessoa também tentou justificar o black face dizendo que máscaras são tradições da arte circense.

Por mais que possam ser, o que essa pessoa não percebe é que em relação às pessoas negras isso tem outro significado, carrega um histórico de opressão e não pode ser validado sob a justificativa de que é arte. Ele julga que somente sua perspectiva do que é arte é valida. Então, eu sugiro a ele que leia a visão de Jean Paul Sartre e Walter Benjamim. Sartre, por exemplo, propunha uma arte engajada e dizia que a mesma não está descolada da política.

É necessário abdicar das desculpas fáceis e perceber que arte, humor, música não são invenções de uma galáxia distante, seus discursos não estão isentos dos valores da cultura, não há nada de neutro. E a obrigação de reconhecer a dignidade humana, a cidadania plena e o acesso a direitos negados em decorrência de uma estrutura social herdeira do escravismo e do patriarcalismo? O poder sempre se esforçou para esconder a origem social das desigualdades, como se as disparidades fossem naturais, meritocráticas ou providencialmente fixadas. Cômico, senão fosse trágico, é ver também pessoas brancas julgarem o que é racismo ou não e ainda fazer críticas ao movimento negro sem sequer conhecer suas práticas.

Lamentável ver o racismo e também a falta de humildade, esclarecimento e crítica e autocrítica destes artistas, que ao receberem estas críticas estão respondendo às pessoas de modo desrespeitoso e até racista. Esses artistas estão cometendo diversos equívocos em vez de repensar e debater. A reação dos militantes não é censura, mas contestação de um ato racista. No momento de se desconstruir e assumir seus erros, a gente percebe que os Fofos não são tão fofos assim.

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